Contos e Lendas: LÚCIFER

23.7.04

LÚCIFER
J. J. BENÍTEZ
CONTOS E LENDAS
 
 
Movido pela curiosidade, pus-me a caminho. E tentei encontrar Lúcifer.
 
Ao chegar no deserto, deparei com um eremita consumido pela fome e a sede.
 
- Conheces Lúcifer?
 
O eremita, assustado, exclamou:
 
- O Maligno tem forma de fonte. Suas águas são desejáveis, mas cuidado, peregrino, são somente uma miragem venenosíssima.
 
Depois entrei no templo das virgens sagradas.
 
- Conheceis Lúcifer?
 
E as sacerdotisas, muito espantadas, bradaram:
 
- O Maligno tem a forma de um bode e nos possui todas as noites.
 
Ao interrogar os doutores da Igreja, me responderam persignando-se:
 
- O Maligno é uma hidra de sete cabeças que devora os que se afastam de nossa santíssima proteção.
 
Fiz a mesma pergunta entre os negros que, espantados, responderam:
 
- Sem dúvida, o Maligno é o homem branco...
 
Mais adiante, encontrei um sábio.
 
- Conheces Lúcifer?
 
- O Maligno - exclamou com espanto o ancião - é um monstro de língua partida. Leva consigo a contradição.
 
Ao entardecer, já a ponto de abandonar tão inútil empreendimento, dei com um jovem de grande beleza.
 
- Conheces Lúcifer? - interroguei-o com desânimo.
 
- Sim, sou eu mesmo.
 
Desconcertado, não soube o que responder-lhe. E Lúcifer, percebendo minha confusão, advertiu-me:
 
- Por que te assombras? Só consultaste meus inimigos!