Contos e Lendas: 08/2004

31.8.04

DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Dona Cacilda é uma senhora de 92 anos, miúda, e tão elegante, que todo o dia às 8 da manhã ela já está toda vestida, bem penteada e discretamente maquiada, apesar de sua pouca visão.
 
E hoje ela se mudou para uma casa de repouso: o marido, com quem ela viveu 70 anos, morreu recentemente, e não havia outra solução.
 
Depois de esperar pacientemente por duas horas na sala de visitas, ela ainda deu um lindo sorriso quando a atendente veio dizer que seu quarto estava pronto.
 
Enquanto ela manobrava o andador em direção ao elevador, eu dei uma descrição do seu minúsculo quartinho, inclusive das cortinas de chintz florido que enfeitavam a janela.
 
Ela me interrompeu com o entusiasmo de uma garotinha que acabou de ganhar um filhote de cachorrinho.
 
- Ah, eu adoro essas cortinas...
 
- Dona Cacilda, a senhora ainda nem viu seu quarto... espera mais um pouco...
 
- Isso não tem nada a ver, ela respondeu.
 
Felicidade é algo que você decide por princípio.
 
Se eu vou gostar ou não do meu quarto, não depende de como a mobília vai estar arrumada... vai depender de como eu preparo minha expectativa.
 
E eu já decidi que vou adorar.
 
É uma decisão que tomo todo dia quando acordo.
 
Sabe, eu posso passar o dia inteiro na cama, contando as dificuldades que tenho em certas partes do meu corpo que não funcionam bem... ou posso levantar da cama agradecendo pelas outras partes que ainda me obedecem.
 
Simples assim?... Nem tanto; isso é para quem tem auto-controle e exigiu de mim um certo "treino" pelos anos a fora, mas é bom saber que ainda posso dirigir meus pensamentos e escolher, em consequência, os sentimentos.
 
Calmamente ela continuou:
 
- Cada dia é um presente, e enquanto meus olhos se abrirem, vou focalizar o novo dia, mas também as lembranças alegres que eu guardei para esta época da vida.
 
A velhice é como uma conta bancária: você só retira aquilo que guardou.
 
Então, meu conselho para você é depositar um monte de alegrias e felicidades na sua Conta de Lembranças.
 
E aliás, obrigada por este seu depósito no meu Banco de Lembranças.
 
Como você vê, eu ainda continuo depositando e acredito que, por mais complexa que seja a vida, sábio é  quem a simplifica".
 
Depois me pediu para anotar:
 
*Receita da Da. Cacilda para se manter jovem:
 
1. Jogue fora todos os números não essenciais para sua sobrevivência.
Isso inclui idade, peso e altura.
Deixe o médico se preocupar com eles.
Para isso ele é pago.
 
2. Freqüente, de preferência, seus amigos alegres.
Os "baixo-astral" puxam você para baixo.
 
3. Continue aprendendo.
Aprenda mais sobre computador, artesanato, jardinagem, qualquer coisa.
Não deixe seu cérebro desocupado.
Uma mente sem uso é a oficina do diabo.
 
4. Curta coisas simples.
 
5. Ria sempre, muito e alto.
Ria até perder o fôlego; ria para você mesmo no espelho, ao acordar e que o sorriso seja sua última 'atitude' antes de dormir.
 
6. Lágrimas acontecem.
Agüente, sofra e siga em frente.
A única pessoa que acompanha você a vida toda é VOCÊ mesmo.
Esteja VIVO enquanto você viver e seja uma boa companhia para si mesmo.
 
7. Esteja sempre rodeado daquilo que você gosta: pode ser família, animais, lembranças, música, plantas, um hobby, o que for.
Seu lar é o seu refúgio, sua mente seu paraíso.
 
8. Aproveite sua saúde.
Se for boa, preserve-a.
Se está instável, melhore-a da maneira mais simples: caminhe, sorria, beba água, ore, veja comédias, leia piadas ou histórias de aventuras, romances e comédias.
Se está abaixo desse nível e não consegue fazer nada por si mesmo, peça ajuda.
 
9. Não faça viagens de remorsos.
Viaje para o shopping, para cidade vizinha, para um país estrangeiro, pega carona num! a calda de cometa, imagine os mais diversos objetos formados pelas nuvens no céu, mas evite as viagens ao passado, pois você pode ficar retido na estação errada.
Escolha as lembranças que quer ter; não se deixe dominar por elas ou perderá o direito à escolha.
 
10. Diga a quem você ama, que você realmente o ama, e diga isso em todas as oportunidades, através do olhar, do toque, das palavras, das ações diárias e do carinho.
Seja feliz com seu próprio sentimento e não exija retribuição; você terá, de graça, o que o outro sentir; nada mais, nada menos.
 
E LEMBRE-SE SEMPRE QUE:
A vida não é medida pelo número de vezes que você respirou, mas pelos momentos em que você perdeu o fôlego...de tanto amor... de tanto rir ...  de surpresa, de êxtase, de felicidade...






31.8.04

OBRA DE ARTE
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Um mestre em caligrafia escreveu alguns ideogramas em uma folha de papel. Um dos seus mais especialmente sensíveis estudantes estava observando. Quando o artista terminou, ele perguntou a opinião do seu pupilo - que imediatamente lhe disse que não estava bom. O mestre tentou novamente, mas o estudante criticou também o novo trabalho. Várias vezes, o mestre cuidadosamente redesenhou os mesmos ideogramas, e a cada vez seu estudante rejeitava a obra.
 
Então, quando o estudante estava com sua atenção desviada por outra coisa e não estava olhando, o mestre aproveitou o momento e rapidamente apagou os caracteres que havia escrito no último trabalho, deixando a folha em branco.
 
"Veja! O que acha?," ele perguntou. O Estudante então virou-se e olhou atentamente.
 
"ESTA... é verdadeiramente uma obra de arte!", exclamou.
 
(Uma lenda diz que este é o conto que descreve a criação de arte do mestre Kosen, que por sua vez foi usada para criar o entalhe em madeira das palavras "O Primeiro Princípio", que ornamentam o portão do Templo Obaku em Kyoto).






31.8.04

POR QUE PALAVRAS?
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Um monge aproximou-se de seu mestre - que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua - com uma grande dúvida:
 
"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"
 
O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."
 
O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"
 
"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem  revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."
 
"Então," o monge perguntou, "por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"
 
"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."
 
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.






31.8.04

DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Para o cego, Jesus é luz...
Para o faminto, Jesus é o pão...
Para o sedento, Jesus é a fonte...
Para o morto, Jesus é a vida...
Para o enfermo Jesus é a cura...
Para o prisioneiro, Jesus é a liberdade...
Para o solitário, Jesus é o companheiro...
Para o mentiroso, Jesus é a Verdade...
Para o viajante, Jesus é o caminho...
Para o visitante, Jesus é a porta...
Para o sábio, Jesus é a sabedoria...
Para a medicina, Jesus é o médico dos médicos...
Para o réu, Jesus é o advogado...
Para o advogado, Jesus é o Juiz...
Para o Juiz, Jesus é a justiça...
Para o tristonho, Jesus é a alegria...
Para o leitor, Jesus é a palavra...
Para o pobre, Jesus é o tesouro...
Para o devedor, Jesus é o perdão...
Para o fraco, Jesus é a força...
Para o forte, Jesus é o vigor...
Para o inquilino, Jesus é a morada...
Para o fugitivo, Jesus é o esconderijo...
Para a ovelha, Jesus é o bom pastor...
Para o problemático, Jesus é a solução...
Para os magos, Jesus é a estrela do oriente...
Para o mundo, Jesus é o salvador...
Para Judas, Jesus é inocente...
Para os demônios, Jesus é o santo de Deus...
Para Deus, Jesus é o Filho amado...
Para o tempo, Jesus é o relógio de Deus...
Para o relógio, Jesus é a última hora...
Para Israel, Jesus é o Messias...
Para as nações, Jesus é o desejado...
Para a Igreja, Jesus é o noivo amado...
Para o vencedor, Jesus é a coroa...
Para a gramática, Jesus é o verbo...
 
E prá você?
Quem é Jesus?






30.8.04

O MELHOR QUE EU TENHO
ROBERT FULGHUM
CONTOS E LENDAS
 
 
De tempo em tempo, a caixa que contém aquelas bugigangas os tesouros pessoais que sobreviveram a tantas "limpezas" tentativas de ser jogados no lixo, atrai a minha atenção. Um ladão que a examinasse não levaria nada - não receberia um centavo por nada daquilo. Mas, se um dia a casa pegar fogo, a caixa irá comigo quando eu sair correndo.
 
Um dos objetos da caixa é um pequeno saco de papel. Uma espécie de lancheira. Embora a boca do saco esteja fechada com fita adesiva grampos e vários clipes, há um rasgo em um dos lados através do qual possível ver o seu conteúdo. Esse saco de papel está sob meus cuidados há uns 14 anos, mas pertence à minha filha, Molly. Assim que chegava da escola, quando ela era criança, começava a empacotar os lanches do dia seguinte. Certa manhã, Molly entregou-me dois sacos de papel, no momento em que eu me aprontava para sair de casa. Um continha lanche. O outro estava fechado com fita adesiva, grampos e clipes.
 
- Por que dois?
 
O outro tem uma coisa especial.
 
- O que é?
 
- Algumas coisinhas para você levar para o trabalho.
 
Ao meio-dia, enquanto eu abria apressadamente o meu lanche verdadeiro, rasguei o outro saco que Molly me dera e despejei conteúdo na mesa. Dois elásticos para prender cabelo, três pedrinha um dinossauro de plástico, um toco de lápis, uma conchinha dois biscoitos em formato de animais, uma bolinha de gude, batom usado, uma bonequinha, duas barras de chocolate e algumas moedinhas totalizando 13 centavos.
 
Eu sorri. Que graça! Levantei-me preparado para enfrentar os assuntos importantes da tarde e limpei a mesa, jogando tudo no cesta de lixo - as sobras do lanche, as coisinhas de Molly, tudo. Não havia nada ali que me pudesse ser útil.
 
Naquela noite, Molly aproximou-se de mim enquanto eu lia o jornal.
 
- Onde está o saco?
 
- Que saco?
 
- Você sabe. Aquele que dei para você hoje cedo.
 
- Ficou no escritório. Por quê?
 
- Esqueci de colocar um bilhetinho dentro - ela disse, entregando-o a mim. - Quero tudo de volta.
 
- Por quê?
 
- São coisinhas minhas papai, coisinhas de que gosto muito. Achei que você gostaria de brincar com elas; mas agora quero tudo de volta. Você não perdeu aquele saco, não é mesmo, papai? - Lágrimas começaram a brotar nos olhos dela. - Traga de volta amanhã, está bem?
 
- Claro.., não se preocupe.
 
Quando ela me abraçou, aliviada, eu abri o bilhetinho, onde se lia:
 
"Eu amo você, papai".
 
E agora?
 
Molly me dera seus tesouros. Tudo o que aquela menina de sete anos mais prezava. Amor dentro de um saco de papel E eu não tinha entendido. Além de não entender, atirei tudo no lixo porque não havia nada ali que me pudesse ser útil.
 
A viagem de volta ao escritório foi longa. Mas não havia outra coisa a ser feita. Cheguei antes da faxineira, peguei o cesto de lixo e derrubei o conteúdo em minha mesa.., e encontrei os tesouros.
 
Depois de lavar o dinossauro coberto de mostarda e limpar os outros objetos com o desinfetante bucal que eu usava para eliminar o hálito com cheiro de cebola, alisei cuidadosamente o saco de papel, amassado em formato de bola, coloquei os tesouros dentro e retornei apressado para casa, como um gatinho machucado. Na manhã seguinte, devolvi o saco a Molly. Não houve perguntas nem explicações. Depois do jantar, pedi a ela que me falasse sobre o que havia dentro do saco. Foi uma conversa longa. Cada coisinha daquelas tinha uma história, uma lembrança ou estava ligada a sonhos e amigos imaginários.
 
Para minha surpresa, Molly devolveu-me o saco mais uma vez, alguns dias depois. Era o mesmo saco rasgado, contendo as mesmas coisas. Eu me senti perdoado. E digno de confiança. E amado. Nos meses seguintes, passei a levar os tesouros comigo de tempos em tempos. Eu mesmo não sabia por que não os levava diariamente. Comecei a pensar neles como se fossem um prêmio para mim tentava ser bondoso na noite anterior para merecer levá-los comigo na manhã seguinte.
 
Com o passar do tempo, Molly dirigiu sua atenção para outras coisas... encontrou outros tesouros... perdeu interesse pela brincadeira.., cresceu. E eu? Eu fui incumbido de guardar o saco de papel. Ela o colocou em minhas mãos um dia e nunca mais me pediu que o devolvesse. Eu o guardo até hoje. As vezes, penso em todas aquelas ocasiões agradáveis da vida que não entendi o carinho que me era oferecido. Um amigo compara essa situação a "estar com a água na altura dos joelhos e morrer de sede". O saco de papel rasgado está lá, dentro da caixa. Lembrança de um tempo em que uma criança disse:
 
- Aqui está tudo o que tenho de melhor. Pode levar, é seu. Tudo o que é meu, dou a você.
 
Eu não entendi na primeira vez. Mas agora aqueles tesouros me pertencem.
 

 






30.8.04

PAI E FILHO
TAHYANE
CONTOS E LENDAS
 
 
Pai, Irmão, Amigo 
 
Te vi estranho
quando tentavas inventar
um idioma para comigo falar.
 
Te vi criança,
quando fostes meu companheiro
nas brincadeiras da infância.
 
 
Te vi orgulhoso,
quando dizias que eu era
a tua semelhança.
 
Te vi amigo,
nas horas que encontrava
tuas mãos a me amparar.
 
Te vi adversário,
quando teus cuidados
fizeram algo me negar.
 
Te vi alegre,
quando compartilhamos
vitórias e emoções.
 
Te vi forte,
para me incentivar
quando tua vontade era chorar
 
Te vi fraco,
para me mostrar,
que as vezes caímos,
mas o importante é ter forças para levantar.
 
Te vi apreensivo,
quando comecei a criar asas
para vôos independentes alçar...
 
E por tudo que eu vi
Hoje eu posso afirmar
que és muito mais que um Pai...
 
Um Ser Humano
sempre tentando acertar...
 
Um grande e eterno amigo!
O amigo que se quer ter,
e em ti pude encontrar.
 
E assim sempre será,
Pai, irmão, amigo onde quer que tu estejas,
eternamente serás...






30.8.04

DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 

George Tomas, um pregador Inglês,apareceu um dia em sua pregação carregando uma gaiola e a colocou no púlpito, e começou a falar.
 
Estava andando pela rua ontem, e vi um menino levando essa gaiola com 3 pequenos passarinhos dentro com frio e com medo.
 
Eu perguntei: Menino o que você vai fazer com esses passarinhos?
 
Ele respondeu: levá-los para casa tirar as penas e queimá-los, vou me divertir com eles.
 
Quanto você quer por esses passarinhos menino?
 
O menino respondeu: - O senhor não vai querê-los, eles não servem para nada. São feios!
 
O pregador os comprou por 10 dólares! E os soltou em uma árvore!
 
Um dia Jesus e Satanás estavam conversando e Jesus perguntou a satanás o que ele estava fazendo para as pessoas aqui na terra.
 
Ele respondeu: Estou me divertindo com elas, ensino a fazer bombas e a matar, a usar revolver, a odiar umas a outras, a casar e a divorciar, ensino a abusar de criancinhas, ensino os jovens a usar drogas, a beber e fazer tudo o que não se deve! Estou me divertindo muito com eles!
 
Jesus perguntou: E depois o que você vai fazer com eles?
 
Vou matá-los e acabar com eles!
 
Jesus perguntou: Quanto você quer por eles?
 
Satanás respondeu: você não vai querer essas pessoas, elas são traiçoeiras, mentirosas, falsas, egoístas e avarentas!  Elas não vão te amar de verdade, vão bater e cuspir no Teu rosto, vão te desprezar e nem vão levar em consideração o que você fizer!
 
Quanto você quer por elas satanás?
 
Quero toda a tua lágrima e todo o teu sangue!
 
Trato feito! E Jesus pagou o preço da nossa liberdade!
 
Como nós podemos nos esquecer de Jesus!
 
Acreditamos em tudo o que nos ensina, mas sempre questionamos as coisas que vem de Deus! Todos querem um dia estar com Deus, mas não querem conhecê-lo!
E amá- lo!
 
Muitos dizem: Eu acredito em Deus,(Satanás também!), mas não fazem nada por Ele!






27.8.04

AUTOR DESCONHECIDO
TRADUÇÃO DE SERGIO BARROS
CONTOS E LENDAS
 
 
Alguns anos atrás, um fazendeiro possuía terras ao longo do litoral do Atlântico. Ele constantemente anunciava estar precisando de empregados. A maioria de pessoas estavam pouco dispostas a trabalhar em fazendas ao longo do Atlântico. Temiam as horrorosas tempestades que variam aquela região, fazendo estragos nas construções e nas plantações. 
 
Procurando por novos empregados, ele recebeu muitas recusas. Finalmente, um homem baixo e magro, de meia-idade, se aproximou do fazendeiro. 
 
- Você é um bom lavrador? Perguntou o fazendeiro. 
 
- Bem, eu posso dormir enquanto os ventos sopram. Respondeu o pequeno homem. 
 
Embora confuso com a resposta, o fazendeiro, desesperado por ajuda, o empregou. O pequeno homem trabalhou bem ao redor da fazenda, mantendo-se ocupado do alvorecer até o anoitecer e o fazendeiro estava satisfeito com o trabalho do homem. 
 
Então, uma noite, o vento uivou ruidosamente. O fazendeiro pulou da cama, agarrou um lampião e correu até o alojamento dos empregados. Sacudiu o pequeno homem e gritou, 
 
- Levanta! Uma tempestade está chegando! Amarre as coisas antes que sejam arrastadas! 
 
O pequeno homem virou-se na cama e disse firmemente, 
 
- Não senhor. Eu lhe falei, eu posso dormir enquanto os ventos sopram. 
 
Enfurecido pela resposta, o fazendeiro estava tentado a despedi-lo imediatamente. Em vez disso, ele se apressou a sair e preparar o terreno para a tempestade. Do empregado, trataria depois. 
 
Mas, para seu assombro, ele descobriu que todos os montes de feno tinham sido cobertos com lonas firmemente presas ao solo. As vacas estavam bem protegidas no celeiro, os frangos nos viveiros, e todas as portas muito bem travadas. As janelas bem fechadas e seguras. Tudo foi amarrado. Nada poderia ser arrastado. O fazendeiro então entendeu o que seu empregado quis dizer, então retornou para sua cama para também dormir enquanto o vento soprava. 
 
O que eu quero dizer com esta história, é que quando se está preparado - espiritualmente, mentalmente e fisicamente - você não tem nada a temer.
 
Eu lhe pergunto: você pode dormir enquanto os vento sopram em sua vida? 






27.8.04

GUTEI E O DEDO
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
O Mestre Gutei, sempre que lhe faziam uma pergunta, respondia levantando um dedo sem dizer nada. Um noviço adquiriu o vício de imitá-lo.
 
Certo dia, um visitante perguntou ao noviço:
 
"Que sermão o Mestre está pronunciando agora?"
 
O noviço respondeu levantando o dedo. O visitante, quando se encontrou com o Mestre, contou-lhe que o noviço o imitara. Mais tarde, o Mestre escondeu uma faca nas vestes e chamou o noviço. Quando este se apresentou, Gutei perguntou-lhe:
 
"O que é Buddha?"
 
O rapaz, ansioso para impressionar o mestre, respondeu levantando o dedo. O Mestre então agarrou-lhe a mão e cortou-lhe o dedo com a faca. O discípulo, apavorado e em choque, já ia sair correndo, mas o Mestre o chamou com um grito:
 
"NOVIÇO!"
 
Quando o rapaz se voltou para o Mestre, este perguntou abruptamente :
 
"O que é Buddha?"
 
O discípulo ia levantar o dedo, mas não tinha mais dedo. Neste instante, ele alcançou o Satori.






27.8.04

O ELOGIO DO SILÊNCIO
MALBA TAHAN
CONTOS E LENDAS
 
 
O Silêncio é preferível à loquacidade; morre do mal do silêncio, mas evita o perigo da loquacidade. Saber calar é virtude cem vezes mais rara do que saber falar.
 
Rabi Azai, o sábio, viaja pelo Irã em companhia de vários discípulos. Em certo momento, um mercador persa, que vinha na caravana, tomado de cólera, por um motivo fútil, entrou a vociferar contra os israelitas. Um dos discípulos disse ao mestre:
 
- Vamos,ó rabi!,responde com energia a esse homem. Insulta-o por nós. Ele fala em valaat e tu conheces muito bem esse dialeto!
 
Retorquiu o doutor Azai;
 
- Sim, meu filho, aprendi a falar o dori, o galani e o valaat,mas aprendi a ficar calado em valaat,em dori e em galani. É o que vou fazer. Guardar silêncio em três dialetos persas.
 
E acrescentou imperturbável, anediando as longas barbas brancas que lhe caíam sobre o peito;
 
- Seria insensatez trocar injúrias com um exaltado, que deblatera como um louco e que nem sabe o que está dizendo.
 
Pelo silêncio, podes ter um desgosto, mas a loquacidade te trará mil e um arrependimentos.
 
Uma palavra irrefletida é amiúde, mais perigosa do que um passo em falso.
 
Guarda a tua língua, como guarda o avarento a sua riqueza. A natureza, que nos deu um só órgão para falar, forneceu-nos dois para ouvir. A inferência é óbvia. Forçoso é concluir que havemos de ouvir duas vezes e falar uma só.
 
Conta-se que um árabe ingressou numa comitiva onde todos eram barulhentos e discutidores e quadrou longo silêncio. Um dos companheiros segredou-lhe;
 
- Consideram-te como um dos mais nobres da tua tribo. Sei agora o motivo. És silencioso e discreto.
 
Replicou o islamita:
 
- Meu irmão, o nosso quinhão de ouvidos pertence-nos: as palavras afoitas e levianas que proferimos pertencem aos outros.
 
A palavra que ficou pendente, pelo silêncio, em nossos lábios, é vassalo pronto a servir-nos; a que proferimos, leviana e inoportunamente. é algoz atento em escravizar-nos.
 
 O sábio e judicioso Simeão, filho do rabi Gamaliel, doutrinava:
 
- Passei a vida entre sábios e nada achei melhor que o silêncio. O essencial não é falar, é fazer. "E quem fala demais abre, em sua vida, portas e janelas para o pecado."
 
Ainda no Talmude podemos sublinhar esta sentença:
 
"Quando falares, fala pouco, pois quando menor for o número de palavras tanto menos errarás."
 
E no Livro de Israel figura também este aviso ditado Prudência:
 
"Quando falares à noite, abaixa a voz; e,quando falares de dia, olha à roda de ti."
 
Se a palavra vale uma sela, o silêncio valerá duas.
 
As moedas mais ambicionadas são, precisamente, as que encerram, em pequeno volume e diminuto peso, grande valor. Assim, a força e a beleza de um discurso consistem no exprimirmos, em poucas palavras, verdades profundas e conceitos magistrais.
 
O Tzarkover (morto em 1903) deixou de pregar por largo espaço. Interrogado sobre isso respondeu:
 
- Há setenta maneiras de rezar a Torá: uma delas é o Silêncio!






27.8.04

PARÁBOLA DAS VIRGENS PRUDENTES E DAS NÉSCIAS
MATHEUS (XXV, 1-13)
CONTOS E LENDAS
 
 
O Reino de Deus será comparado a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo.
 
Cinco dentre elas eram néscias e cinco prudentes.
 
As néscias, tomando as suas lâmpadas não levaram azeite consigo; mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, juntamente com as lâmpadas.
 
Tardando o noivo, toscanejaram todas e adormeceram.
 
Mas à meia noite ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí a seu encontro!
 
Então se levantaram todas aquelas virgens e prepararam suas lâmpadas.
 
E disseram as néscias às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão se apagando!
 
Porém as prudentes responderam: Talvez não haja bastante para nós e para vós. Ide antes aos que o vendem e comprai-o para vós.
 
Enquanto foram comprá-lo, veio o noivo; e as que estavam apercebidas entraram com ele para as bodas e fechou-se a porta.
 
Depois vieram as outras virgens e disseram: Senhor, Senhor, abre-nos a porta!
 
Mas ele respondeu: Em verdade vos digo que não vos conheço.
 
"Portanto, vigiai, porque não sabeis nem o dia, nem a hora".






26.8.04

ARTUR DA TAVOLA
CONTOS E LENDAS
 
 
Hoje é dia de meu aniversário. E de todas as minhas modestas dimensões humanas, a que mais me realiza é a de ser pai.
 
Ser pai é, acima de tudo, não esperar recompensas. Mas ficar feliz caso e quando cheguem. É saber fazer o necessário por cima e por dentro da incompreensão. É aprender a tolerância com os demais e exercitar a dura intolerância (mas compreensão) com os próprios erros.
 
Ser pai é aprender, errando, a hora de falar e de calar. É contentar-se em ser reserva, coadjuvante, deixado para depois. Mas jamais falar no momento preciso. É ter a coragem de ir adiante, tanto para a vida quanto para a morte. É viver as fraquezas que depois corrigirá no filho, fazendo-se forte em nome dele e de tudo o que terá de viver para compreender e enfrentar.
 
Ser pai é aprender a ser contestado mesmo quando no auge da lucidez. É esperar. É saber que experiência só adianta para quem a tem, e só se tem vivendo. Portanto, é agüentar a dor de ver os filhos passarem pelos sofrimentos necessários, buscando protegê-los sem que percebam, para que consigam descobrir os próprios caminhos.
 
Ser pai é: saber e calar. Fazer e guardar. Dizer e não insistir. Falar e dizer. Dosar e controlar-se. Dirigir sem demonstrar. É ver dor, sofrimento, vício, queda e tocaia, jamais transferindo aos filhos o que, a alma, lhe corrói. Ser pai é ser bom sem ser fraco. É jamais transferir aos filhos a quota de sua imperfeição, o seu lado fraco, desvalido e órfão.
 
Ser pai é aprender a ser ultrapassado, mesmo lutando para se renovar. É compreender sem demonstrar, e esperar o tempo de colher, ainda que não seja em vida. Ser pai é aprender a sufocar a necessidade de afago e compreensão. Mas ir às lágrimas quando chegam.
 
Ser pai é saber ir-se apagando à medida em que mais nítido se faz na personalidade do filho, sempre como influência, jamais como imposição. É saber ser herói na infância, exemplo na juventude e amizade na idade adulta do filho. É saber brincar e zangar-se. É formar sem modelar, ajudar sem cobrar, ensinar sem o demonstrar, sofrer sem contagiar, amar sem receber.
 
Ser pai é saber receber raiva, incompreensão, antagonismo, atraso mental, inveja, projeção de sentimentos negativos, ódios passageiros, revolta, desilusão e a tudo responder com capacidade de prosseguir sem ofender; de insistir sem mediação, certeza, porto, balanço, arrimo, ponte, mão que abre a gaiola, amor que não prende, fundamento, enigma, pacificação.
 
Ser pai é atingir o máximo de angústia no máximo de silêncio. O máximo de convivência no máximo de solidão. É, enfim, colher a vitória exatamente quando percebe que o filho a quem ajudou a crescer já, dele, não necessita para viver. É quem se anula na obra que realizou e sorri, sereno, por tudo haver feito para deixar de ser importante.






26.8.04

DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Aquela era uma noite como outra qualquer para aquele moço cego que voltava para casa pelo mesmo roteiro de sempre, há três anos.
 
Ele seguia tateando com sua bengala para identificar os acidentes do caminho, que eram seus pontos de referência, como todo deficiente visual.
 
Mas, naquela noite, uma mudança significativa havia acontecido no seu caminho: um pequeno arbusto, que lhe servia de ponto de referência e estava ali pela manhã, fora arrancado.
 
A rua estava deserta e ele não conseguia mais encontrar o rumo de casa.
 
Andou por algum tempo, e percebeu que havia se afastado bastante da sua rota, pois verificou que estava numa ponte sobre o rio que separa a sua cidade da cidade vizinha. 
 
Era preciso encontrar o caminho de volta.
 
Mas como, sem o auxílio da visão?
 
Começou a tatear com sua bengala, quando uma voz trêmula de mulher lhe indagou:
 
- O senhor está encontrando alguma dificuldade?
 
- Acho que me perdi, respondeu o rapaz.
 
- Foi o que pensei, comentou a mulher.
 
- Quer que o acompanhe a algum lugar?
 
O rapaz lhe deu o endereço e ela, oferecendo-lhe o braço, o conduziu  até à porta de casa.
 
- Não sei como lhe agradecer, falou o moço.
 
- Eu é que lhe devo um sincero agradecimento, respondeu ela, já com voz  firme.
 
- Não compreendo, retrucou o rapaz.
 
E a jovem senhora então explicou:
 
-  Há uma semana meu marido me abandonou. Eu estava naquela ponte para me suicidar, pois geralmente àquela hora está deserta. Aí encontrei o senhor tateando sem rumo e mudei de idéia.
 
A mulher disse boa noite, agradeceu mais uma vez, e desapareceu na rua deserta.
 
Também, em nossas vidas, talvez tenhamos passado por experiências semelhantes à das personagens dessa história.
 
Quantas vezes já não sentimos vontade de sumir, de pôr um fim ao sofrimento que nos visita e um braço amigo nos sustentou antes da queda. Ou, quiçá, já tenhamos nos sentido perdido, sem rumo, sem esperança, e uma voz se fez ouvir e nos indicou uma saída.
 
Quem já não se sentiu numa situação assim, vivendo ora como o socorro que chega, ora como o socorrido?
 
Tudo isso nos dá a certeza de que nunca estamos sós.
 
Alguém invisível vela por nós e nos oferece um braço amigo nas horas de desespero. Ou, então, inspira-nos a oferecer nosso apoio a alguém que está à beira do abismo.
 
Pense nisso!
 
Você costuma olhar ao seu redor, no seu dia-a-dia?
 
Costuma prestar atenção naqueles que seguem com você pelo mesmo caminho?
 
Se já tem o hábito e a sensibilidade de se importar com os semelhantes, talvez tenha sido um anjo desses a alguém em desespero.  E se ainda não havia pensado nisso, pense agora. E comece a ser um braço amigo sempre disposto a conduzir alguém com segurança.






26.8.04

A ONÇA
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Ao voltar de um exaustivo dia de caça, trazendo segura nos dentes uma pequena corça, a onça encontrou sua toca vazia. Imaginando que os filhotes estivessem nas imediações, pôs-se a procurá-los com diligência. Olhou e examinou cada canto, sem encontrá-los. Preocupada com a demora que se tornava séria, desesperou-se e tomada de pânico esgoelou-se em urros que encheram de espanto toda a floresta.
 
Uma anta decidiu indagar a respeito da ocorrência. Chegando junto à toca viu a onça desatinada e então, jeitosamente, procurou saber dela o que estava acontecendo.
 
Devoraram-me os filhotes! - gemeu a onça. Infames esses caçadores que cometeram friamente o maior de todos os crimes: mataram os meus filhos.
 
A anta conciliadora, porém franca, não deixou que a oportunidade se passasse sem que ela dissesse à onça certas verdades que embora dolorosas, careciam ser ouvidas por ela naquele momento.
 
Então lhe falou:
 
- Mas senhora onça, se analisar bem o fato, há de convir que suas acusações não procedem. Perdoe-me a franqueza, nessa hora de desespero. Respeito a sua dor, mas devo dizer-lhe que os caçadores fizeram apenas uma vez aquilo que a senhora pratica todos os dias. Não pode negar que vive sempre a comer os filhotes dos outros, não é verdade? Ainda agora mesmo acabou de abater um filhote de corsa.
 
Tomada de indignação, a onça arregalou os olhos como que espantada pela coragem e atrevimento da anta, falando com um ódio mortal:
 
- Oh, estúpida criatura! É isso que você tem a dizer para consolar o meu coração ferido pela dor? Com que direito você se atreve a comparar os meus filhos aos filhotes dos outros? E como pode comparar o meu sofrimento e desolação ao dos demais? É preciso considerar primeiro a minha posição, em relação à dos outros animais, para depois ponderar sobre a situação.
 
Foi nesse momento que um velho macaco, bem do alto do seu galho assistia ao diálogo, falou como quem está revestido de autoridade:
 
- Amiga onça, é sempre assim, a dor alheia só atinge aos sensíveis, jamais ao egoísta.






26.8.04

A VACA ZEN
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Shih-kung, um dia, trabalhava na cozinha quando Ma-tsu aproximou-se e perguntou o que fazia.
 
"Estou cuidando da Vaca, "disse o outro, enquanto lavava os pratos.
 
"Como cuidais da vaca?" desejou saber o mestre.
 
"Se ela se afasta da Senda, eu puxo-a de volta pelo focinho. Não posso me distrair nem um minuto!"
 
Comentou  Ma-tsu:
 
"Sabeis realmente cuidar dela."






25.8.04

CONTOS E LENDAS
 
 
À um homem, quando nasceu, foi lhe dado uma cesta de pétalas de rosas e uma cesta de espinhos.
 
E lá foi o homem pela sua vida caminhando.
 
De vez em quando jogava umas pétalas de rosas aqui, outras ali ao chão e muitas e muitas vezes jogava espinhos...
 
E lá foi o homem caminhando, jogando poucas pétalas de rosas e muitos espinhos ao chão...
 
Quando chegou no fim da sua vida, a cesta de pétalas de rosas estava praticamente cheia, enquanto a de espinhos estava quase vazia e diante de Jesus perguntou:
 
- Jesus, aqui estou, já terminei a minha missão, o que faço agora?
 
E Jesus com os olhos fixos naquele homem, respondeu-lhe:
 
- E agora, meu filho, volte pelo mesmo caminho que você veio.
 
Espalhe amor e alegria pela sua vida, tratando bem o seu semelhante e todos os seres existentes nesta terra, pois, certamente, se não o fizer, sofrerás mais tarde com a dor dos espinhos nos seus pés.






25.8.04

DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Um homem de idade já bem avançada veio à Clínica onde trabalho, para fazer um curativo na mão ferida.
 
Estava apressado, dizendo-se atrasado para um compromisso, e enquanto o tratava perguntei-lhe sobre qual o motivo da pressa.
 
Ele me disse que precisava ir a um asilo de anciãos para, como sempre, tomar o café da manhã com sua mulher que estava internada lá.
 
Disse-me que ela já estava há algum tempo nesse lugar porque tinha um Alzeimer bastante avançado.
 
Enquanto acabava de fazer o curativo, perguntei-lhe se ela não se alarmaria pelo fato de ele estar chegando mais tarde.
 
- Não, ele disse. Ela já não sabe quem eu sou. Faz  quase cinco anos que não me reconhece.
 
Estranhando, lhe perguntei:
 
- Mas se ela já não sabe quem o senhor é, porque essa necessidade de estar com ela todas as manhãs?
 
Ele sorriu e dando-me uma palmadinha na mão, disse:
 
- É . Ela não sabe quem eu sou, mas eu contudo sei muito bem quem é ela.
 
Meus olhos lacrimejaram enquanto ele saía e eu pensei:
 
Essa é a classe de amor que eu quero para a minha vida.
 
O verdadeiro amor não se reduz ao físico nem ao romântico. O verdadeiro  amor é a aceitação de tudo o que o outro é, do que foi, do que será e... do que já não é...".






25.8.04

MÁRIO QUINTANA
CONTOS E LENDAS
 
 
A vida são deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, passaram-se 50 anos...
 
Agora, é tarde demais
Para ser reprovado...
 
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,
Eu nem olhava o relógio.
 
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho,
A casca dourada e inútil das horas...
 
***
 
Dessa forma eu digo,
Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo,
A única falta que terá,
Será desse tempo que infelizmente não voltará mais.






25.8.04

TRANSITORIEDADE
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Certa vez, uma pequena onda do oceano percebeu que ela não era igual às outras ondas e disse:
 
"Como sofro! Sou pequena, e vejo tantas ondas maiores e poderosas do que eu! Sou na verdade desprezível e feia, sem força e inútil..."
 
Mas outra onda do oceano lhe disse:
 
"Tu sofres porque não percebes a transitoriedade das formas, e não enxergas tua natureza original. Anseias egoísticamente por aquilo que não és, e mergulhas em auto-piedade!"
 
"Mas," replicou a pequena onda,"se não sou realmente uma pequena onda, o que sou?"
 
"Ser onda é temporário e relativo. Não és onda, és água!"
 
"Água? E o que é água?"
 
"Usar palavras para descrevê-la não vai levar-te à compreensão. Contemples a transitoriedade à tua volta, tenhas coragem de reconhecer esta transitoriedade em ti mesma. Tua essência é água, e quando finalmente vivenciares isso, deixarás de sofrer com tua egóica insatisfação..."






24.8.04

CAROL ORSBORN
FONTE: COMO CONFÚCIO PEDIRIA UM AUMENTO DE SALÁRIO
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Havia um fazendeiro cuja plantação de trigo foi prejudicada devido a uma praga de gafanhotos e, em seguida, devido a uma inundação. Embora a família tivesse o suficiente para comer, eles não conseguiam progredir. O fazendeiro orou a Deus, implorando-lhe uma estação perfeita:
 
- Deus! Mande-me muito sol e pouco volume de chuva, nenhuma praga e brisa suave. Isso é tudo o que peço.
 
Deus atendeu o fazendeiro e este viu sua nova plantação de trigo crescer forte e alta. Ele se ajoelhou para agradecer a Deus, mas à distância, ouviu as exclamações de sua esposa e filhos. Eles tinham aberto as belas espigas e as encontraram vazias. Sem resistência o trigo havia deixado de produzir sementes.
 
Ainda de joelhos, o fazendeiro continuou:
 
- Porém, no ano que vem, Senhor, mande-me exatamente as dificuldades necessárias para tornar o meu trigo forte.






24.8.04

REGINA CELIA SUPPI
CONTOS E LENDAS
 
 
Conta-se que um homem, ainda jovem, querendo saber o segredo de ser um bom pai, foi visitar um sábio que vivia numa alta montanha. Sendo recebido por ele, foi logo expondo o seu problema. 
 
- Estou aqui porque preciso da sua orientação. Não sei bem como lidar com meus filhos. Se sou severo com eles, acusam-me de ser ditador, se sou atencioso, gentil, tomam-me por fraco...Amigo, me diga qual é a melhor forma de criar os filhos!
 
O sábio ouviu-o atentamente e limitou-se a entregar-lhe um cinzel e um bloco de madeira, dizendo: 
 
- Pega isso, filho, e leva contigo. Quando tiveres esculpido uma obra de valor, traga-a aqui e terás a resposta que procura. 
 
O jovem pai olhou-o surpreso. Não quis ser descortês com quem lhe dispensara um pouco do seu tempo e fizera a gentileza de recebe-lo em sua casa. Meio decepcionado, pegou o que o sábio lhe oferecia, levantou-se e saiu. 
 
Mais entristecido do que nunca, chegou em casa cabisbaixo. 
 
Os filhos logo o cercaram querendo saber para que serviam aqueles instrumentos. Ele se deixou envolver pela alegria contagiante das crianças e logo se viu sentado entre elas tentando esculpir na madeira. 
 
Passaram-se os dias, quase sem ele perceber. Conseguira concluir sua obra! Então, subiu novamente á montanha e, orgulhoso, apresentou ao sábio o resultado de seus esforços. 
 
Tomando a escultura nas mãos, o sábio observou e apreciou cada detalhe. 
 
- Muito bem! Disse ele dirigindo-se ao pai. - Ao esculpir a madeira, como eram os golpes que você dava com o cinzel? Fortes ou fracos? 
 
- No início eu dava golpes duros, secos, desajeitados. Percebi que isso prejudicava a madeira. Mas fui aos poucos adquirindo prática e, então, fui aprendendo a golpear com menos força, a usar melhor o cinzel, a tirar somente as lascas que fossem necessárias. Aprendi a conhecer a madeira, a amar a obra.
 
Conseguia visualizar quão bela seria mesmo antes dela tomar forma. Aprendi a respeitar suas limitações, e as minhas, a saber que para cada obra é necessário um tipo de madeira, que é preciso paciência, cuidado com os detalhes, saber olhar. Aprendi que outros podem me ajudar, mas cabe a mim a tarefa de terminar.
 
Aprendi a não esperar a perfeição, visto que meus próprios esforços são imperfeitos, e que muitas vezes ainda vou errar. Aprendi que, mesmo se houvesse um modelo a seguir, cada obra é única, não aceita imitação. Aprendi que a beleza já reside na madeira, minha função é apenas ajuda-la a vir para fora. Aprendi que por detrás de uma aparência rude, descuidada e até danificada, pode estar uma madeira nobre, precisando de reparos, que pode ser recuperada se souber trabalhar nela com carinho.
 
Aprendi a olhar para dentro de mim mesmo, mas a não permanecer apenas lá. Aprendi que quanto mais perto de Deus me sentir, mais passo isso para o que estou fazendo. Aprendi que estou aqui para aprender mais do que para ensinar... 
 
- Muito bem, meu amigo, concluiu o sábio - Aprendestes o ofício paterno. 
 
Aprendestes a ser Pai!






O BUDA DE OURO
JACK CANFIELD
CANJA DE GALINHA PARA A ALMA
CONTOS E LENDAS
 
 
No outono de 1988, minha esposa Georgia e eu fomos convidados a fazer uma palestra sobre auto-estima e desempenho máximo numa conferência em Hong Kong. Como nunca havíamos estado no Extremo Oriente, decidimos entender nossa viagem e visitar a Tailândia.
 
Ao chegarmos a Bangkok, resolvemos fazer uma visita aos mais famosos templos budistas da cidade. Naquele dia, juntamente com nosso intérprete e motorista, eu e Georgia visitamos vários templos budistas, mas, depois de algum tempo, todos eles começaram a se confundir em nossa memória.
 
No entanto, um dos templos deixou uma indelével impressão em nossos corações e mentes. Chama-se o "Templo do Buda de Ouro". O templo em si é muito pequeno, provavelmente não mais do que 10 x 10 metros. Mas, ao entrarmos, ficamos atordoados com a presença de um Buda de ouro maciço. de 3,5 metros de altura. Ele pesa mais de duas toneladas e meia, e está avaliado em aproximadamente cento e noventa e seis milhões de dólares! Foi uma visão extremamente impressionante o Buda de ouro maciço, gentil e bondoso, embora imponente, sorrindo para nós.
 
Enquanto estávamos envolvidos com as atividades normais dos turistas (tirar fotografias e fazer exclamações de admiração diante da estátua), caminhei até uma vitrine que continha um pedaço de barro com cerca de oito polegadas de espessura por doze polegadas de largura. Ao lado da vitrine havia uma página datilografada descrevendo a história desta magnífica peça de arte.
 
Nos idos de 1957, um grupo de monges de um monastério precisava transferir um Buda de barro de seu templo para um novo local. O monastério teria que ser transferido para ceder espaço à construção de uma auto-estrada que atravessaria Bangkok. Quando o guindaste começou a suspender o ídolo gigantesco, seu peso era tamanho que ele começou a rachar. E, como se isso não bastasse, começou a chover. O monge superior, que estava preocupado com os danos que pudessem ocorrer ao Buda sagrado, resolveu devolver a estátua ao chão e cobri-la com um grande encerado de lona para protegê-la da chuva.
 
Mais tarde, naquela noite, o monge foi verificar como estava o Buda. Acendeu sua lanterna sob o encerado para ver se o Buda continuava seco. Conforme a luz incidiu sobre a rachadura, o monge notou um pequeno brilho e achou estranho. Ao olhar mais de perto o reflexo da luz, perguntou-se se poderia haver algo sob o barro. Foi buscar um cinzel e um martelo no monastério e começou a retirar o barro. À medida que derrubava fragmentos do barro, o pequeno brilho se tornava maior e mais forte. Muitas horas de trabalho se passaram até que o monge se deparou com o extraordinário Buda de ouro maciço.
 
Os historiadores acreditam que algumas de centenas de anos antes da descoberta do monge, o exército dos birmaneses estava prestes a invadir a Tailândia (chamada então de Sião). Os monges siameses, percebendo que seu país seria logo atacado, cobriram seu precioso Buda de ouro com uma camada externa de barro, a fim de evitar que seu tesouro fosse roubado pelos birmaneses. Infelizmente, parece que os birmaneses massacraram todos o monges siameses, e o bem-guardado segredo do Buda de ouro permaneceu intacto até aquele fatídico dia em 1957.
 
Voltando para casa no avião da Cathay Pacifica Airlines, pensei comigo mesmo: "Somos todos como o Buda de barro, recobertos por uma concha de resistência criada pelo medo e ainda assim, dentro de cada um de nós, há um ¿Buda de ouro¿ ou uma ¿essência de ouro¿, que é o nosso eu verdadeiro. Em algum lugar ao longo do caminho, entre as idades de dois e nove anos, começamos a encobrir nossa ¿essência de ouro¿, nosso eu natural. E, assim como o monge, com o martelo e o cinzel, nossa tarefa agora é descobrir mais uma vez a nossa verdadeira essência."






24.8.04

DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Havia um casal de ateus que tinha uma filha. Os pais jamais lhe falaram de Deus.  
 
Uma noite, quando a menina tinha cinco anos, seus  pais brigaram e o pai atirou em sua mãe e em seguida, se suicidou.
 
Tudo isto aconteceu diante da menininha. Depois da tragédia ela foi enviada a um lar adotivo e sua nova mãe, levou-a a uma igreja.
 
Pacientemente, sua nova mãe explicou a professora das crianças que a  menina jamais havia escutado falar de Jesus e que por favor ela tivesse paciência.
 
Durante a aula a professora apanhou uma figura de Jesus e perguntou a todos:
 
- Alguém sabe quem e esta pessoa?
 
A menininha, inesperadamente, respondeu:
 
- Eu sei, eu sei, esse é o homem que estava segurando na minha mão na noite em que meus pais morreram...
 
Devemos acreditar no sol, mesmo quando não ilumina... no amor mesmo quando não o sentimos. Acreditar em Deus mesmo quando Ele permanece calado.






23.8.04

DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Se eu soubesse que essa seria a última vez que eu veria você dormir, eu aconchegaria você mais apertaria você mais apertado , e rogaria ao senhor DEUS que protegesse você.
 
Se eu soubesse que seria a última vez que veria você sair pela porta, eu abraçaria ,eu beijaria você, chamaria você de volta,para abraçar e beijar uma vez mais.
 
Se eu soubesse que essa seria a última vez que ouviria sua voz em oração, eu filmaria cada gesto, cada palavra sua,para que eu pudesse ver de novo,dia após dia.
 
Se eu soubesse essa seria a última vez,eu gastaria um minuto extra ou dois, para parar e dizer:"EU TE AMO", ao invés de assumir que você já sabe disso.
 
Se eu soubesse que essa seria última vez, eu estaria ao seu lado, partilhando do seu dia, ao invés de pensar: "BEM, eu tenho certeza que outra oportunidade virão , então eu posso deixar passar esse dia". É claro"que haverá um amanhã para se fazer uma revisão.
 
E nós teremos uma segunda chance para fazer as coisas da maneira correta, e nós teremos uma segunda chance para fazer as coisas da maneira correta.
 
" É claro" que  haverá uma outro dia para dizermos um ao outro: "EU TE AMO", e certamente haverá uma nova chance de dizermos um para o outro: "Posso te ajudar alguma coisa?"
 
Mas no caso de eu estar errado, e hoje ser último dia que temos, eu gostaria de dizer "O QUANTO TE AMO", e espero que nunca nos esqueçamos disso.
 
O dia de amanhã não está prometido para ninguém, jovem ou velho, e hoje pode ser sua última chance de segurar bem apertado, a pessoa que você ama.
 
Se você está esperando pelo amanhã, porque não fazer hoje?
 
Porque se o amanha não vier, você com certeza se arrependerá pelo resto da sua vida, de não ter gasto aquele tempo extra num sorriso, num abraço, um beijo, porque você estava "muito ocupado" para dar para aquela pessoa,aquilo que acabou sendo o último desejo que ela queria.
 
Então, abrace o seu amado, a sua amada hoje. Bem apertado.
 
Sussurre nos seus ouvidos, dizendo, o quanto o (a) ama e o quanto o (a) quer junto de você.
 
Gaste um tempo para dizer: "Não desculpe", por favor, "me perdoe", "Obrigado", ou ainda: "Não foi nada, está tudo bem".
 
Porque,se o amanhã jamais chegar, você não terá que se arrepender pelo dia de hoje.






23.8.04

DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Quando o pai voltava do trabalho, o garotinho corria com os braços abertos em busca de um abraço aconchegante.
 
Mas, o pai, acostumado à educação rígida e equivocada do início do século vinte, ia logo dizendo: "homem não abraça homem".
 
O menino ficava sem saber o que fazer com a vontade de demonstrar seu afeto e carinho àquele a quem amava e admirava.
 
Isso lhe causava extremo desconforto, mas foi se acostumando a não abraçar o pai, e nem chorar, pois"homens não choram", segundo a mesma educação que recebia.
 
Sempre que algo o infelicitava, prendia o choro na garganta e corria para os braços da mãezinha dedicada, a quem podia abraçar sem medo de ser menos homem.
 
Esse conceito ancestral, infelizmente, ainda é muito comum nos dias de hoje.
 
Muitos filhos homens não se sentem à vontade para abraçar seus pais e, menos ainda, para beijá-los.
 
Aquele garoto, que agora já está com mais de 75 anos de idade, conta que foi muito difícil conviver com a dificuldade de extravasar seus sentimentos com quem quer que fosse.
 
Não conseguia abraçar os amigos, não conseguia chorar graças às orientações que recebera na infância.
 
Diz ele, que só conseguiu vencer essa barreira, com muito esforço, há pouco tempo.
 
Hoje ele consegue se entregar num abraço sem medo de ser feliz. Mas chorar em público é algo que procura evitar, pois a frase ouvida muitas vezes na infância, ainda o persegue: "homens não choram".
 
Mas a lógica nos diz que os homens também podem e devem chorar, sem que isso os diminua como homens.
 
Homens que se privam de extravasar suas dores e tristezas pelas lágrimas, geralmente arrebentam o coração em enfartes fulminantes.
 
O que faz um ser humano ser digno não é o fato de deixar de chorar, ou de evitar se envolver num abraço. O que dá dignidade a um homem é a sua capacidade de amar, de se entregar, de se deixar levar pela emoção sadia.
 
O cancioneiro popular, Gonzaguinha, retratou, através da música "Guerreiro Menino", essa realidade:
 
Um homem também chora...
Também deseja colo... Palavras amenas
Precisa de carinho, precisa de ternura
Precisa de um abraço da própria candura
Guerreiros são pessoas, são fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos no fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho que os torne refeitos
É triste ver este homem guerreiro menino, com a barra de seu tempo por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra, eu vejo que ele sangra a dor que traz no peito, pois ama e ama
Um homem se humilha, se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida, e a vida é o trabalho
E sem o seu trabalho um homem não tem honra
E sem a sua honra, se morre, se mata.
....................................................
 
Hombridade não é sinônimo de dureza.
 
O homem está mergulhado num corpo masculino, mas é um filho de Deus como outro qualquer.
 
Um homem também chora...
 
Um homem também sente saudade...
 
Um homem também se entristece quando parte um ser querido..
 
Um homem também se equivoca, também de arrepende, também se sente só muitas vezes.
 
E, às vezes, a única maneira de aliviar um pouco o peito oprimido é deixar que as lágrimas jorrem com vontade.
 
Paulo de Tarso, o apóstolo, na luta para vencer-se a si mesmo, encontrava nas lágrimas uma forma de desabafo.
 
Aquele gigante do cristianismo deixava, nas horas difíceis, as lágrimas aliviarem seu coração oprimido.
 
"A cada gota de pranto era um pouco de fel que expungia da alma, renovando-lhe as sensações de tranqüilidade e de alívio."
 
Jesus, o maior Homem de que se tem notícia, também chorou.
 
Pense nisso, e se sentir vontade ou necessidade, abra as comportas do peito e deixe que as lágrimas lavem e aliviem seu coração, sem medo de ser feliz.






23.8.04

ENTENDER
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Tozan perguntou a seu mestre Ungan:
 
"Quem pode entender o ensinamento das coisas não sensíveis?"
 
Ungan respondeu:
 
"Só as coisas não sensíveis podem entender o ensinamento das coisas não sensíveis."
 
Tozan então questionou:
 
"Para assim me responder vós  entendestes ou experimentastes este ensinamento?"
 
Ungan afirmou:
 
"Se eu pudesse entendê-lo, tu não o poderias."






23.8.04

TAHYANE
CONTOS E LENDAS
 
 
Pai, Irmão, Amigo
 
Te vi estranho
quando tentavas inventar
um idioma para comigo falar.
 
Te vi criança,
quando fostes meu companheiro
nas brincadeiras da infância.
 
Te vi orgulhoso,
quando dizias que eu era
a tua semelhança.
 
Te vi amigo,
nas horas que encontrava
tuas mãos a me amparar.
 
Te vi adversário,
quando teus cuidados
fizeram algo me negar.
 
Te vi alegre,
quando compartilhamos
vitórias e emoções.
 
Te vi forte,
para me incentivar
quando tua vontade era chorar
 
Te vi fraco,
para me mostrar,
que as vezes caímos,
mas o importante é
ter forças para levantar.
 
Te vi apreensivo,
quando comecei a criar asas
para vôos independentes alçar...
 
E por tudo que eu vi
Hoje eu posso afirmar
que és muito mais que um Pai...
 
Um Ser Humano
sempre tentando acertar...
 
Um grande e eterno amigo!
O amigo que se quer ter,
e em ti pude encontrar.
 
E assim sempre será,
Pai, irmão, amigo onde quer que tu estejas,
eternamente serás...






20.8.04

WU-MING E OS PEPINOS
COMPILADOS PELO MESTRE TUNG-WANG ABADE DO MONASTÉRIO HAN-HSIN NO PERÍODO DO DÉCIMO TERCEIRO ANO DO DRAGÃO DA TERRA (898 D.C.).
CONTOS E LENDAS
 
 
Meu caro amigo, o mais reverendo mestre Tung-Wang,
 
Velho e doente, aqui eu me prostro sabendo que escrever esta carta será o meu último ato nesta terra e que no momento em que vós lestes estas palavras eu já terei partido desta vida.
 
Embora nós não nos encontremos pessoalmente já há muitos anos desde que estudávamos juntos sob os auspícios de nosso mais venerável mestre, eu freqüentemente penso em vós, o seu mais valoroso sucessor.
 
Monges através da China dizem que vós sois um verdadeiro leão do Dharma de Buddha; um leão cujos olhos são como estrelas brilhantes, cujas mãos agarram os raios, e cuja voz soa como o trovão.
 
É dito que vossa mais leve ação sacode o céu e a terra e faz com que os elefantes e dragões da delusão fujam desesperados.
 
Soube que vosso Monastério é inigualável em severidade, e que sob vossa correta orientação centenas de monges esforçam-se no treinamento com intenso zelo e vigor.
 
Eu também soube que no campo de encontrar um sucessor esclarecido vossa sorte não tem sido boa.
 
O que me leva ao objetivo desta missiva.
 
Eu rogo que vós agora presteis atenção ao jovem que carregava esta nota.
 
Enquanto ele espera à vossa frente, sem dúvida sorrindo estupidamente ao mesmo tempo em que se empanturra de pepinos em conserva, vós podeis estar imaginando se ele não é um completo tolo como de fato aparenta, e se assim for, o que me levou a enviá-lo a vós.
 
Em resposta à primeira questão, eu vos asseguro que a tolice de Wu-Ming é ainda mais completa que sua mera aparência poderia levar-vos a crer.
 
E quanto à segunda questão, eu apenas posso dizer que a despeito de tal situação absurda, ou talvez por causa dela, ou ainda mais corretamente, a despeito e por causa dela, Wu-Ming, talvez inadvertida e acidentalmente, demonstra encarnar em si a função de um grande Bodhisattva.
 
Creio que ele poderá ser-vos útil.
 
Permitais para ele dezesseis horas de sono diariamente e o mantenhais provido de grande número de pepinos em conserva e Wu-Ming sempre estará feliz.
 
Não esperais nada dele e vós estareis sempre feliz.
 
Respeitosamente,
 
Chin-Mang
 
 
 
Após os funerais de Chin-mang, os ajudantes de seu templo organizaram a viagem de Wu-ming para o Monastério Han-hsin, onde eu residia então, como agora, na qualidade de Abade.
 
Um monge encontrou Wu-ming nos portões do Monastério, e vendo a carta com o meu nome espetada em seu manto, o dirigiu aos meus aposentos.
 
Normalmente, quando primeiramente se apresenta ao Abade, um monge recentemente chegado ao Monastério deveria prostrar-se três vezes e pedir respeitosamente para ser aceito como estudante.
 
Não admira eu ter sido tomado de surpresa quando Wu-ming caminhou para o quarto, pegou um pepino da jarra de conserva sob seu braço, enfiou-o todo na boca e, alegremente mascando-o ruidosamente abriu um largo e imbecil sorriso que um dia seria considerado lendário.
 
Olhando casualmente em torno do quarto, estalou os lábios e disse:
 
"Quando comemos?"
 
Após ler a carta do estimado Chin-mang, eu chamei o monge-chefe e lhe pedi para mostrar ao meu novo estudante os dormitórios dos monges.
 
Quando eles se foram eu refleti sobre as palavras de Chin-mang. Han-hsin era realmente o mais severo lugar de prática: os invernos eram cruelmente frios e nos verões o sol fulgurava.
 
Os monges dormiam não mais do que três horas cada noite e comiam apenas uma frugal refeição por dia.
 
Pelo resto do dia eles trabalhavam duro em torno do Monastério e praticavam muito o zazen no salão de meditação.
 
Mas, realmente, Chin-mang tinha corretamente ouvido e entre todos os meus discípulos não havia um único a quem eu confiantemente poderia considerar um digno merecedor de receber a intransmissível transmissão do Dharma.
 
Eu começava a desesperar, e sentia que seria incapaz de evitar, devido a falta de um sucessor, falhar em cumprir minha obrigação de manter a continuação da linhagem do Dharma de meu professor.
 
Dificilmente os monges poderia ser acusado de falhar por complacência ou indolência.
 
Suas sinceras aspirações de esforços disciplinados eram na verdade admiráveis, e muitos tinham logrado grande claridade de conhecimento.
 
Mas eles eram preocupados em mostrar sua capacidade em suportar duras disciplinas e eram orgulhosos de suas descobertas intelectuais.
 
Ele disputavam entre si por posições de prestígio e poder e rivalizavam entre si por reconhecimento.
 
Ciúmes, rivalidades e ambição pareciam pairar como uma negra nuvem sobre o Monastério Han-hsin, sugando até mesmo os mais sábios e sinceros para a sua obscura bruma.
 
Segurando a carta de Chin-mang ante mim, eu esperei e rezei para que este Wu-ming, este "Bodhisattva acidental" possa ser o fermento que minha receita tão sofregamente necessitava.
 
Para meu surpreendente prazer, Wu-ming integrou-se à vida em Han-hsin como um pato à água.
 
Sob minha sugestão ele foi designado para um trabalho na cozinha, conservando vegetais.
 
E isto ele fez incansavelmente, e com alegre empenho ele juntava e misturava ingredientes, erguia pesados barris e, é claro, freqüentemente experimentava o resultado de seu trabalho culinário. Ele estava deliciado!
 
Quando os monges reuniam-se no Zendô, eles invariavelmente encontravam Wu-ming já sentado em completa imobilidade, aparentemente em intenso e profundo Samadhi.
 
Ninguém jamais podia adivinhar que a única coisa profunda acerca da atitude de Wu-ming em zazen era a grande improbabilidade com que ele podia usar a postura de meditação ¿ pernas dobradas na posição do Lótus, costas eretas e centradas ¿ como uma maneira maravilhosamente boa para ele desfrutar de longas horas de sono, que tanto gostava.
 
Dia após dia e mês a mês, enquanto os monges lutavam para superar as demandas físicas e mentais da vida monástica, Wu-ming, com um sorriso e assobiando, passava por tudo isso sem nenhum problema.
 
Muito embora, verdade seja dita, a prática Zen de Wu-ming fosse sem o menor mérito, pela aparência ele era considerado por todos como um monge de grandes realizações e perfeita disciplina.
 
Evidentemente eu poderia ter acabado com essa impressão muito facilmente, mas eu percebi que o tipo especial de magia que Wu-ming possuía estava surtindo efeito e eu não jogaria fora esta tão absurda e rica dádiva.
 
Por sua vez os vários monges demonstravam arroubos de ciúme, perplexidade, hostilidade, humildade ou inspiração pelo que eles presumiam ser a grande realização de Wu-ming.
 
É claro que jamais ocorreu a Wu-ming que o comportamento seu ou de outro qualquer atrairia tais julgamentos, porque estes eram resultado de uma natureza sofisticada de comparação que estava além do alcance de sua mente.
 
Na verdade, tudo acerca dele era tão óbvio e simples que os outros o consideravam assustadoramente sutil.
 
A presença inescrutável de Wu-ming tinha um efeito tremendamente perturbador nas vidas dos monges, mas cortava a teia de racionalizações que tão freqüentemente acompanha tais transtornos.
 
Sua obviedade tão intensa lhe deixava incompreensível e imune às pretensão sociais de outros.
 
Tentativas de lisonjas e injúrias encontravam igualmente o mesmo sorriso de incompreensão, um sorriso que o monges reputavam ser a própria lâmina afiada da espada da Perfeita Sabedoria.
 
Não encontrando alívio ou diversão nestas atitudes, os monges eram forçados a procurar a fonte e resolução de sua frustração ante Wu-ming em suas próprias mentes.
 
Mais importante ¿ e absurdo ¿ ainda, Wu-ming provocava o surgimento entre os monges de uma inconquistável determinação em penetrar completamente no ensinamento "O Grande Caminho é sem dificuldades" que eles sentiam que ele encarnava.
 
Através do curso de minha vida tendo encontrado muitos dos mais veneráveis progenitores dos ensinamentos do Tathagata, jamais eu encontrei alguém tão capaz de levar outros a despertar suas naturezas Búddhicas intrínsecas como este tolo maravilhoso chamado Wu-ming.
 
Suas espirituosas tolices eram como centelhas, acendendo a chama da luminosa sabedoria nas mentes daqueles que ousavam lhe desafiar para um diálogo.
 
Certa vez um monge aproximou-se de Wu-ming e perguntou-lhe fervorosamente:
 
"Em todo o Universo, o que é o mais maravilhoso?"
 
Sem hesitação Wu-ming balançou um pepino ante a face do monge e exclamou:
 
"Não há nada mais maravilhoso do que isto!!!"
 
Ao quê o monge chocou-se com os limites do dualismo sujeito-objeto:
 
"O Universo inteiro é como um pepino em conserva; um pepino em conserva é como todo o Universo!"
 
Wu-ming simplesmente riu e disse:
 
"Pare de dizer besteiras. Um pepino é um pepino; o Universo inteiro é o Universo inteiro. O que poderia ser mais óbvio?"
 
O monge, penetrando na perfeita manifestação fenomenal da Verdade Absoluta, bateu as mãos e riu, dizendo:
 
"Ao longo do infinito espaço, tudo está deliciosamente azedo!"
 
Em outra ocasião um monge perguntou a Wu-ming:
 
"O Terceiro Patriarca disse, 'o Grande Caminho é sem dificuldades, simplesmente deixe de ter preferências'. Como podeis então deliciar-vos em comer pepinos, e todavia recusais a experimentar mesmo uma migalha de cenoura?"
 
Wu-ming disse: "Eu adoro pepinos; e odeio cenouras!!"
 
O monge pulou para trás como se atingido por um raio. Então, rindo e chorando e dançando em torno ele exclamou: "Gostar de pepinos e detestar cenouras não é difícil, simplesmente deixe de preferir o Grande Caminho!!!"
 
Em três anos após a sua chegada, as estórias acerca do "Grande Bodhisattva do Monastério de Han-hsin" tinham feito seu caminho ao longo das províncias da China.
 
Sabendo desta fama de Wu-ming, não fiquei inteiramente surpreso quando um mensageiro do Imperador apareceu solicitando a presença de Wu-ming no Palácio Imperial imediatamente.
 
Através do Império os expoentes dos Três Ensinamentos (Buddhismo, Confucionismo e Taoísmo) estavam sendo convocados à capital, e lá o Imperador iria proclamar um deles como sendo a verdadeira religião a ser praticada e pregada em todas as terras sob seu domínio.
 
A idéia de tal competição pelo favor Imperial não era de minha aprovação em absoluto e a possibilidade de que uma perseguição religiosa se seguisse a tal acontecimento preocupava-me grandemente.
 
Mas uma ordem do Imperador não é para ser ignorada, portanto Wu-ming e eu partimos no dia seguinte.
 
Dentro do Grande Pavilhão estavam reunidos mais de cem monges e eruditos que preparavam-se para debater entre si.
 
Eles estavam cercados pelos mais poderosos senhores da China, junto com inumeráveis conselheiros do Filho do Céu.
 
Ao mesmo tempo trombetas ecoaram, címbalos bateram, e nuvens de incenso coleavam para o teto em todos os cantos.
 
O Imperador, cercado por uma muralha de guardas, foi carregado até o trono.
 
Após a formalidades devidas terem sido observadas o Imperador deu o sinal para o debate começar.
 
Muitas horas se passaram enquanto, um após outro, os sacerdotes e eruditos se aproximavam e apresentavam suas doutrinas e respondiam às questões.
 
Em meio a tudo isso Wu-ming ficava lá sentado, obviamente contente enquanto se empanturrava com sua comida favorita.
 
Quando sua provisão terminou, ele cruzou feliz as pernas, endireitou suas costas e fechou os olhos.
 
Mas o barulho e a comoção eram muito grandes e, incapaz de dormir, ele foi ficando mais e mais inquieto e irritado a cada minuto.
 
Enquanto eu massageava firmemente seu pescoço num esforço de relaxá-lo, o Imperador fez um gesto para que Wu-ming se aproximasse do Trono.
 
Quando Wu-ming ficou ante ele, o Imperador disse:
 
"Ao longo das terras tu és considerado como um Bodhisattva cuja mente é como o próprio Grande Vazio, todavia ainda não proferiste uma palavra nesta assembléia.
 
Portanto nós te dizemos agora, ensinai-nos sobre o Grande Caminho através do qual todas as coisas existentes sob o céu devem percorrer."
 
Wu-ming nada disse.
 
Após alguns momentos o Imperador, com uma nota de impaciência, falou novamente:
 
"Talvez tu não ouviste bem, então repetirei mais uma vez! Ensinai-nos sobre o Grande Caminho através do qual todas as coisas existentes sob o céu devem percorrer!!"
 
Wu-ming continuou sem nada dizer, o silêncio ondulou por toda a multidão enquanto todos se tensionavam, atentos a observar o monge que ousava se comportar de uma forma tão atrevida ante a presença do Imperador.
 
Wu-ming não ouviu nada do que o Imperador tinha dito, nem mesmo percebeu a tensão que vibravam através do Salão.
 
Tudo que o preocupava era seu desejo de encontrar um lugar tranqüilo onde pudesse dormir imperturbado.
 
O Imperador falou de novo, sua voz tremendo de fúria, sua face distorcida em cólera:
 
"Tu foste convocado a este conselho para falar em prol do ensinamento Budista.
 
Teu desrespeito não mais será tolerado.
 
Nós iremos inquirir-te uma vez mais, e se tu falhares em responder, nós asseguramos-te que as conseqüências serão extremamente graves!
 
Ensinai-nos sobre o Grande Caminho através do qual todas as coisas existem sob o céu devem percorrer!"
 
Sem uma palavra Wu-ming virou-se e, com todos olhando em estupefata apreensão, percorreu o caminho ao longo do corredor e para a saída.
 
Houve um silêncio de aturdida descrença antes da multidão irromper em um clamor de confusão.
 
Alguns aplaudiam a brilhante demonstração de percepção espiritual de Wu-ming, outros explodiam em cólera indignada, lançando imprecações e ofensas em direção à porta pela qual ele tinha saído.
 
Sem saber se devia agradecer Wu-ming ou mandar arrancar-lhe a cabeça, o Imperador voltou-se para seus conselheiros, mas eles não souberam o que dizer.
 
Finalmente, olhando para a completa anarquia que o grande debate tinha se reduzido, o Imperador certamente percebeu que, não importando quais tinham sido as intenções de Wu-ming, havia agora um único caminho para evitar que o debate se tornasse o mais vexaminoso embaraço:
 
"O grande sábio do Monastério Han-hsin demonstrou brilhantemente que o grande Tao não pode estar preso à doutrinas, mas é na verdade melhor exposto através de ações harmoniosas.
 
Procuremos nos beneficiar com a sabedoria que ele tão compassivamente compartilhou, assim empenhando-nos em fazer nossos passos cada vez mais unos com o céu e a terra, conforme a natureza do profundo e sutil Tao."
 
Tendo assim falado o Filho do Céu concluiu o Grande Debate.
 
Eu imediatamente corri em busca de Wu-ming, mas ele tinha desaparecido nas ruas apinhadas de gente da capital.
 
Dez anos se passaram desde então, e eu não soube mais nada sobre ele.
 
Contudo, numa ocasião um monge itinerante fez uma parada em Han-hsin com algumas notícias.
 
Soube que Wu-ming se tornou um andarilho pelo país nestes anos, tentando sem sucesso encontrar o caminho para seu lar.
 
Devido à sua fama ele é bem recebido e cuidado em todos os lugares com generoso carinho, e entretanto estes que buscam lhe ajudar em sua jornada acabam percebendo que são eles que na verdade ajudaram a si próprios.
 
Um jovem monge falou de um encontro em que Wu-ming perguntou-lhe: "Podeis me dizer onde é meu lar?"
 
Confuso com o espírito da questão, o monge replicou: "O lar de que vós falais pode ser encontrado no mundo da impermanência do tempo e espaço, ou vós quereis saber do Lar Original da natureza Búddhica essencial?"
 
Após uma pausa para pensar na questão, Wu-ming olhou-o e, sorrindo como só ele é capaz, disse:
 
"Sim."