Contos e Lendas: 10/2004

29.10.04

DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
As sandálias do discípulo fizeram um barulho especial nos degraus da escada de pedra que levavam aos porões do velho convento.
 
Era naquele local que vivia um homem muito sábio. O jovem empurrou a pesada porta de madeira, entrou e demorou um pouco para acostumar os olhos com a pouca luminosidade.
 
Finalmente, ele localizou o ancião sentado atrás de uma enorme escrivaninha, tendo um capuz a lhe cobrir parte do rosto. De forma estranha, apesar do escuro, ele fazia anotações num grande livro, tão velho quanto ele.
 
O discípulo se aproximou com respeito e perguntou, ansioso pela resposta:
 
- Mestre, qual o sentido da vida?
 
O idoso monge permaneceu em silêncio. Apenas apontou um pedaço de pano, um trapo grosseiro no chão junto à parede. Depois apontou seu indicador magro para o alto, para o vidro da janela, cheio de poeira e teias de aranha.
 
Mais do que depressa, o discípulo pegou o pano, subiu em algumas prateleiras de uma pesada estante forrada de livros. Conseguiu alcançar a vidraça, começou a esfregá-la com força, retirando a sujeira que impedia a transparência.
 
O sol inundou o aposento e iluminou com sua luz estranhos objetos, instrumentos raros, dezenas de papiros e pergaminhos com misteriosas anotações.
 
Cheio de alegria, o jovem declarou:
 
- Entendi, mestre. Devemos nos livrar de tudo aquilo que não permita o nosso aprendizado. Buscar retirar o pó dos preconceitos e as teias das opiniões que impedem que a luz do conhecimento nos atinja. Só então poderemos enxergar as coisas com mais nitidez.
 
Fez uma reverência e saiu do aposento, a fim de comunicar aos seus amigos o que aprendera.
 
O velho monge, de rosto enrugado e ainda encoberto pelo largo capuz, sentiu os raios quentes do sol a invadir o quarto com uma claridade a que se desacostumara. Viu o discípulo se afastando, sorriu levemente e falou:
 
- Mais importante do que aquilo que alguém mostra é o que o outro enxerga. Afinal, eu só queria que ele colocasse o pano no lugar de onde caiu.






29.10.04

DEZ COISAS QUE NÃO DEVEM SER EVITADAS
DVAGPO-LHARJE
CONTOS E LENDAS
 
 
1 - As idéias, sendo a luz do espírito não devem ser evitadas.
 
2 - As formas-pensamento, sendo jogos da realidade, não devem ser evitadas.
 
3 - As paixões obscurecedoras, sendo o meio de despertar a lembrança da Divina Sabedoria (a que permite a libertação) não devem ser evitadas (se são praticadas de modo a permitir o gozo da vida em sua plenitude e por este alcançar a desilusão).
 
4 - A opulência, sendo a ceva e a água do crescimento espiritual, não deve ser evitada.
 
5 - A moléstia e as atribulações ensinando a piedade, não devem ser evitadas.
 
6 - Os inimigos e o infortúnio sendo o meio de dirigir alguns para a vida religiosa, não devem ser evitados.
 
7 - Aquilo que vem por si mesmo (sem ser solicitado) sendo um dom divino, não deve ser evitado.
 
8 - A razão, sendo em qualquer ação a melhor amiga, não deve ser evitada.
 
9 - Os exercícios de devoção do corpo e do espírito que se é capaz de cumprir, não devem ser evitados.
 
10 - O pensamento de ajuda aos outros, por mais limitada que seja a possibilidade de ajuda que se possa dar, não deve ser evitado.






29.10.04

PAULO COELHO
CONTOS E LENDAS
 
 
Miie Tamaki resolveu largar tudo que fazia - era economista - para dedicar-se à pintura. Durante anos procurou um mestre adequado, até que encontrou uma mulher especialista em miniaturas, que vivia no Tibet. Miie deixou o Japão e foi para  as montanhas tibetanas, aprender o que precisava. Passou a morar com a professora, que era extremamente pobre.
 
No final do primeiro ano, Miie voltou ao Japão por alguns dias, e retornou ao Tibet com um carro cheio de presentes. Quando a professora viu isto, começou a chorar, e pediu que Miie não voltasse mais a sua casa, dizendo: "Antes, nossa relação era de igualdade e amor. Você tinha tecto, comida, e tintas. Agora, ao me trazer estes presentes, você estabelece uma diferença social entre nós. Se existe esta diferença, não pode existir compreensão e entrega".






29.10.04

SEMELE
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOS DA GRECIA E DE ROMA
MITOLOGIA E FOLCLORE
 
 
Filha de Cadmo, um rei de Tebas que semeou os seus próprios súditos, utilizando como semente propícia os dentes de um dragão.
 
Com Sêmele, Zeus teve um simpático e popular deus da vegetação e, sobretudo e antes de mais, do vinho e a sua euforia, Dionísio (o Baco dos romanos), de quem a mãe sempre esteve orgulhosa, pois salvou-a das trevas do Averno e transportou-a para o Olimpo, coisa que o seu poderoso amante Zeus não fez ou não quis fazer.






29.10.04

SEM PROBLEMA
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Um praticante Zen foi à Bankei e fez-lhe esta pergunta, aflito:
 
"Mestre, Eu tenho um temperamento irascível. Sou às vezes muito agitado e agressivo e acabo criando discussões e ofendendo outras pessoas. Como posso curar isso?"
 
"Tu possuis algo muito estranho," replicou Bankei. "Deixe ver como é esse comportamento."
 
"Bem... eu não posso mostrá-lo exatamente agora, mestre," disse o outro, um pouco confuso.
 
"E quando tu a mostrarás para mim?" perguntou Bankei.
 
"Não sei... é que isso sempre surge de forma inesperada," replicou o estudante.
 
"Então," concluiu Bankei, "essa coisa não faz parte de tua natureza verdadeira. Se assim fosse, tu poderias mostrá-la sempre que desejasse. Quando tu nasceste não a tinhas, e teus pais não a passaram para ti. Portanto, saibas que ele não existe."






28.10.04

A VERDADEIRA MÁGICA
OSHO
CONTOS E LENDAS
 
 
A primeira pergunta:
 
Osho,
Eu entendi que você disse outro dia, no discurso, que Jesus não andou sobre a água e que não existem milagres como tais. Mas, praticando o samyama do udana sutra de Patânjali, o homem não é capaz de fazer isso?
Por favor, comente.
Anand Guenter,
 
<>Repito que não há milagres como tais, porque toda a existência é um milagre. Que outros milagres mais podem existir? Cada momento, cada evento, é miraculoso.
 
A pessoa religiosa é aquela para quem tudo, do mais comum ao mais extraordinário, tornou-se um milagre. A semente desabrochando folhas verdes, não é isso um milagre muito maior do que qualquer sujeito andando sobre as águas no Mar da Galiléia? Um pássaro voando no céu, ao vento, não é isso um milagre maior do que qualquer pessoa andando no fogo? As rosas, os lótus, os cravos, os milhões de flores... - e você não vê nenhum milagre neles.
 
E fica procurando por coisas estúpidas. Alguém materializando um relógio suíço - isso é um milagre; e a rosa não é um milagre.
 
Alguém fabricando cinza benta - isso é um milagre... e o homem que fabrica cinza benta não passa de um asno; e um passarinho chamando à distância não é um milagre. 
 
Você está cego, completamente cego e insano. Você só pode acreditar em coisas infantis. Você não está em busca da verdadeira mágica da vida; eis por que estúpidos mágicos podem enganá-lo.
 
Simplesmente existir é mais do que a pessoa pode acreditar. Ser capaz de respirar, ser capaz de ver a aurora, ser capaz de ouvir o chilrear dos pássaros, ser capaz de sentir amor, oração, gratidão, silêncio... Este exato momento... - isto é um milagre. 
 
O silêncio que o abarca, o amor que transpira entre mim e vocês, a comunhão, o satsang com corações abertos como lótus - vocês me bebendo com tanta
vulnerabilidade, com tão imensa confiança... - que mais milagres são necessários para provar que a existência é um mistério?...
 
Isto aconteceu:
 
Um grande mahatma - grande porque ele andava sobre a água - foi ver Ramakrishna Paramahansa. 
 
Ramakrishna morava em Dakshineshwar, perto de Calcutá, à beira do Ganges.
 
Ele estava sentado debaixo de uma árvore, a banyan, olhando para a beleza do Ganges fluindo, quando chegou o mahatma - e, é claro, tais pessoas estão em grandes viagens de ego. 
 
Então como ele podia andar sobre as águas, é claro que ele era grandioso. A própria vibração dele estava dizendo: "mais santo do que tu".
 
Ele parou em frente de Ramakrishna e disse: "Ouvi dizer que as pessoas o consideram um grande místico - mas você pode andar sobre as águas?".
 
Ramakrishna disse: "Não, eu não posso andar sobre as águas. Na verdade, eu nem sei nadar! Você pode?".
 
E então, o homem disse: "Posso sim, eu posso andar sobre as águas.".
 
Ramakrishna perguntou: "Senhor, por favor, diga-me quanto tempo levou para você aprender a arte?"
 
O homem disse: "Dediquei dezoito anos para aprender a arte de andar sobre as águas.".
 
E Ramakrishna começou a rir como uma criancinha, e disse:
 
"Isso é uma estupidez, porque, sempre que eu quero ir à outra margem, o barqueiro me leva, e custa só um centavo! Por um centavo eu posso ir à outra margem - e você perdeu dezoito anos? Vale só um centavo, não mais do que isso. E você se considera santo!?".
 
O mesmo tipo de história aconteceu com aquela misteriosa muçulmana, Rabiya. 
 
Hasan, um místico sufi, foi ver Rabiya e queria mostrar-lhe seus poderes. O próprio desejo de mostrar seus poderes já é feio: é político, não é religioso, absolutamente, não é espiritual.
 
Ele falava de outras coisas, mas ficou esperando o momento certo para entrar, de modo que pudesse mostrar seus poderes.
 
E Rabiya disse: "Está na hora de eu ler o meu Alcorão. Você vai participar, recitando o Alcorão comigo?".
 
E este era o momento certo pelo qual ele estava esperando.
 
Ele disse: "Vamos até a água." - o lago estava bem defronte deles -"Andaremos sobre as águas enquanto recitamos o Alcorão!".
 
Rabiya disse: "Andar sobre as águas recitando o Alcorão? Isso não me atrai muito. Você não vê as nuvens brancas no céu? Poderíamos ir lá, sentarmos sobre a nuvem e recitar o Alcorão.".
 
Hasan disse: "Mas eu não sei como voar no céu. Você aprendeu a arte de voar no céu?".
 
Rabiya disse: "Os pássaros podem voar no céu; isso não é bem uma arte... Os peixes podem nadar no rio, no lago; isso não é bem uma arte... Hasan, volte à razão! Eu só estava brincando. Eu não posso ir até as nuvens, eu não posso andar sobre as águas. 
 
Mas o verdadeiro milagre é que, ao recitar o Alcorão, eu desapareço. Você pode fazer isso? Somente a recitação permanece, a cantiga permanece - o cantador desaparece, eu não mais sou.".
 
Eu concordo com Rabiya. Tem havido muito poucas mulheres que podem ser chamadas de Mestres; Rabiya é uma delas.
 
Você me pergunta, Guenter: Eu entendi que você disse outro dia no discurso, que Jesus não andou sobre a água.
 
Disse, sim, porque eu respeito Jesus muitíssimo, eu não posso acreditar que ele fosse tão estúpido a ponto de andar sobre as águas. 
 
E você diz: Você também disse que não existem milagres como tais.
 
Disse, sim, não há milagre como tais, porque o todo da vida é miraculoso.
 
Você estar aqui e em nenhum outro lugar mais... - não é isso um milagre?
 
Por que você está aqui? Por que existe toda essa existência?
 
Não é isso tremendamente misterioso, miraculoso? E você fica perguntando coisinhas. Essas coisinhas são todas inventadas; são pequenos truques mágicos - ou são coisas que só existem nas histórias. 
 
Ouvi contar que Jesus, Lucas, João... os três estavam indo até o barco que estava no meio do lago. Lucas andava sobre a água, então, João também andou
sobre a água; ambos chegaram ao barco.
 
Então, Jesus os seguiu e começou a afundar.
 
Lucas disse a João: "Deveríamos dizer a ele onde estão as pedras?" .
 
E esta anedota:
 
Numa cidadezinha, havia um lago, cujas águas eram conhecidas como milagrosas. As pessoas chegavam ao lago, mergulhavam em suas águas e saíam
do outro lado, curadas.
 
"Vi de tudo, aqui!" - afirmava um antigo morador da cidade - "Vi um cego pular no lago e sair do outro lado, gritando: 'Posso ver! Posso ver! "', Um velho e pobre aleijado, ouvindo essa história, decidiu ir ele mesmo até o lago milagroso. Quando chegou lá, ele viu um homem de uma perna só pular no lago e sair do outro lado, gritando sem acreditar: "Eu posso andar! Tenho duas pernas!".
 
O aleijado não pôde esperar mais, então, pulou da sua velha cadeira-de-rodas e empurrou-se para dentro do lago...
 
As pessoas da cidade puxaram-no do outro lado, morto.
 
Mas a cadeira-de-rodas saiu com os aros novinhos em folha!
 
Parece que a cadeira-de-rodas conhecia a arte de Patânjali e o segredo de fazer milagres!
 
Os Sutras de Patânjali certamente mencionam milagres, mas por uma razão totalmente diferente, não pela razão, Guentar, que você pensa. 
 
Patânjali escreveu um capítulo separado sobre siddhis, milagres, com específico propósito de que ninguém deveria ficar envolvido em tais coisas.
 
Foi para inibir, para proibir. Não é seu propósito, que você fique interessado em milagres. Seu propósito é muito claro.
 
Ele diz que aqueles que se perdem nos milagres, estão perdidos numa floresta. 
 
Certamente existem poderes dentro de você, poderes escondidos dentro de você, dos quais você não está consciente. E quando você começa a aprofundar-se em meditação, esses poderes escondidos começam a se manifestar por si mesmos, e há toda a possibilidade de que você possa ser tentado por esses poderes. Não há nada de miraculoso neles; eles são tão naturais como qualquer outra lei. Nós simplesmente não compreendemos a lei subjacente a eles, por isso os chamamos de "milagres". 
 
Por exemplo, se você meditar, logo, logo, perceberá o fato de que você pode ler os pensamentos dos outros. Ora, isso parecerá milagre: antes de a pessoa ter feito a pergunta, você poderá respondê-la. E ela se surpreenderá e você será venerado como um grande santo. 
 
Mas você está é sendo muito estúpido, porque, de algum modo, você livrou-se das suas próprias idéias; agora você está ficando interessado nas idéias de outras pessoas. 
 
Se as suas idéias eram inúteis - você acha que as idéias das outras pessoas são muito significativas?
 
Levou uma longa, árdua caminhada livrar-se, de algum modo, da sua mente, e agora você caiu num problema maior. 
 
Milhões de mentes ao seu redor e, assim que passa alguém por perto, você lerá seus pensamentos. Você perdeu o ponto principal!
 
Isso não é inteligência. É um ato muito estúpido da sua parte, muito medíocre, ficar envolvido com as idéias de outras pessoas e começar a lê-Ias. É claro, elas começarão a ficar muito impressionadas e o venerarão, mas toda a adoração delas simplesmente reforçará o seu ego. E logo, logo, você verá que, à medida que o ego se torna forte novamente, sua mente retoma e você pára de ler as idéias de outras pessoas.
 
Aí, então, você tem de inventar estratégias, de modo que possa continuar reivindicando o poder que certa vez existiu e que não mais existe. É muito difícil aceitar a derrota. 
 
Então a pessoa se toma uma charlatã, uma impostora. No começo, pode ter sido algum poder interior, que se tomou manifesto nela; agora ela o perdeu. Mas
como dizer às pessoas que "eu o perdi"? No momento em que ela disser que o perdeu, toda a veneração e os seguidores desaparecerão.
 
Patânjali escreveu um capítulo inteiro só para deixá-lo ciente de que essas coisas são possíveis. 
 
Há possibilidades, escondidas em você, nem sonhadas por você; elas podem tornar-se manifestas quando você for para dentro. 
 
Mas não fique de modo algum envolvido com elas; permaneça uma testemunha.
 
Mantenha-se não-tentado e continue indo para dentro. E a tentação será grande. Não existem demônios nem Satãs tentando-o; é a sua própria mente e
suas capacidades interiores que o tentam.
 
Pela mesma razão eu nego os milagres. Eu não quero que vocês se tomem interessados em qualquer espécie de coisa que possa se tomar uma distração
da verdadeira busca. 
 
Sei, perfeitamente bem que, se o peixe pode nadar dentro da água e o pássaro pode voar no céu, há a possibilidade de que, através de certas práticas de
iogas, o seu corpo possa começar a levitar. 
 
Você pode perder a atração da gravidade sobre você - você pode livrar-se dela através de certo processo de respiração. Você pode tomar-se quase sem peso e, então, você pode andar sobre as águas ou voar no céu.
 
Mas eu condeno todas essas coisas pela mesma razão que Patânjali as menciona, porque a minha própria experiência foi esta: que a menção de Patânjali não foi de nenhuma ajuda. Se ele não as tivesse mencionado, teria sido muito melhor, porque as pessoas são muito tolas...
 
Na verdade, as pessoas lêem mais aquele capítulo. Os Sutras de Patânjali contêm somente quatro capítulos. Três capítulos têm de ser praticados e o quarto tem de ser evitado. Mas as pessoas ficam interessadas somente no quarto, e, se elas estão interessadas nos três, estão interessadas nos três somente como um meio em direção ao quarto. O objetivo de Patânjali ficou completamente perdido.
 
Depois de cinco mil anos de busca espiritual e de tateio na escuridão e de observação de milhões de pessoas, esta é a minha conclusão: se Patânjali não tivesse mencionado aqueles milagres, muito mais pessoas teriam sido beneficiadas.
 
É a mesma história... Deus disse a Adão e Eva para não comerem o fruto da Árvore do Conhecimento - e eles ficaram interessados nele. No Jardim do Éden, havia milhões de árvores; eles não ficaram interessados em nenhuma outra árvore. Ficaram tentados cada vez mais pela Árvore do Conhecimento. "Por que Deus a proibiu?..." O fruto proibido tomou-se mais atraente. Nós todos sabemos que o beijo proibido é muito mais doce - e o beijo roubado pode dar diabetes! É puro açúcar branco.
 
No dia em que Deus disse a Adão "Não coma desta árvore.", desse dia em diante, Adão deve ter sonhado com a árvore sem parar. Ele deve ter passeado de manhã, de tarde e de noite ao redor da árvore, muitas vezes num dia, para ver se a árvore ainda existia, ou não, e como os frutos estavam crescendo. Vocês podem imaginar o quanto ele deve ter pensado nela sempre e cada vez mais.
 
E é puro absurdo dizer-se que o Demônio veio em forma de serpente para tentá-lo - Deus foi suficiente. 
 
Sua proibição foi suficiente para tentá-lo. Não havia nenhuma necessidade do Demônio, nenhuma necessidade da chegada de nenhuma cobra.
 
Diga a qualquer criança "Não faça isso!" e haverá toda a possibilidade de ela desejar fazê-lo. 
 
Meu pai me disse: "Antes que seja tarde demais, quero dizer-lhe que não fume.".
 
E eu lhe disse: "Agora, isso será difícil para mim!".
 
Ele disse: "O que você quer dizer?".
 
Eu respondi: "Eu jamais tinha pensado nisso. Na verdade, essa simples idéia parecia tola para mim. Ao invés de respirar ar puro, botar fumaça suja para dentro e para fora... E você ainda tem de pagar por isso! E tem de sofrer por isso. E eu tenho visto as pessoas tossindo e ainda assim fumando!...".
 
Meu próprio avô sofreu de tosse toda a sua vida. E os médicos viviam dizendo: "Não fume."; mas isso era impossível para ele. Até o fim, ele continuou a fumar.
 
Assim, eu disse: "Observar o meu avô foi o bastante. Por que você tinha de me dizer "não fume"? Agora eu posso garantir-lhe que vou fumar!".
 
E naquele mesmo dia eu fumei pela primeira vez. É claro que foi ruim - uma experiência ruim: as lágrimas vieram aos meus olhos e comecei a tossir. Eu não podia acreditar que milhões de pessoas estivessem fazendo aquilo. Mas eu disse ao meu pai: "Fumei hoje e já parei. Não tivesse você me dito, eu não teria nem tentado. Há milhões de coisas no mundo pelas quais se interessar.".
 
O mesmo erro foi cometido por Patânjali, com todas as boas intenções. Ele mencionou, em detalhes, todos os siddhis, todos os poderes que são possíveis, só para tornar o buscador ciente - mas ele mesmo está completamente inconsciente da tolice das pessoas que vão ler esses sutras.
 
Na verdade, naqueles dias, os Sutras de Patânjali não foram escritos; assim, era seguro, porque eles foram revelados do Mestre aos discípulos, oralmente; eles foram revelados somente para as pessoas que eram bastante inteligentes, suficientemente capazes. Mas agora o perigo está amplamente difundido. Quem quer que seja que leia os sutras de Patânjali, torna-se imediatamente interessado no capítulo que existe especificamente para lhes proibir. 
 
Mas eis como são as pessoas; não somente gente miúda, mas gente que é muito inteligente, gente importante... - elas também se tomam interessadas nas coisas que são proibidas.
 
Por exemplo: J. Krishnamurti, uma das pessoas mais inteligentes dos dias de hoje, ainda lê romances policiais e pela simples razão que, na sua infância, quando todos gostavam de histórias e de romances policiais, eles foram-lhe proibidos. Era tudo observado: o que ele comia, o que ele lia, onde ele ia... Ele cresceu como um prisioneiro. Dos nove aos vinte e cinco anos, ele foi continuamente observado - nem um único momento de solitude. E aquele velho sujo, Leadbeater, que era seu guardião, indicado por Annie Bessant, a presidente da Sociedade Teosófica, seguia-o como uma sombra. 
 
E sempre havia alguém ali com um olho nele, porque ele iria ser o Professor do Mundo. 
 
Ora, ao Professor do Mundo não pode ser permitido fumar cigarros, jogar cartas, xadrez, ou experimentar drogas psicodélicas, nem se apaixonar por uma garota.
 
Não lhe foi permitida a companhia de nenhuma garota da sua própria idade. 
 
Quando ele tinha treze anos, foi-lhe permitida somente a companhia de uma mulher de quarenta e mesmo assim houve rumores então, por todo o mundo de
que eles se apaixonaram. A mulher tinha quarenta anos e a mulher o tinha quase na conta de filho dela, mas o rumor foi não largamente espalhado que eles finalmente foram separados - foram obrigados a se separarem. Eles tinham se apaixonado de certo modo: ele começou a amá-la como sua mãe e ela começou a amá-lo como a um filho. Mas nem isso era correto - qualquer espécie de apego poderia deter o progresso do Mestre do Mundo. E, é claro, nenhum romance policial, nenhuma história...
 
Quando ele ficou livre, uma vez que ele declarou aos vinte e cinco anos que "Eu não vou ser o Professor do Mundo. Eu dissolvo a organização que foi feita especialmente para mim..." - uma grande organização tinha sido criada para receber o Professor do Mundo, a Ordem da Estrela do Oriente; ele dissolveu a Ordem. 
 
Devolveu todas as propriedades que pertenciam à Ordem; devolveu todos os donativos que tinham sido dados à Ordem. Aos vinte e cinco anos, ele ficou livre dos teosofistas. Desde então, ele jamais leu o Gita, o Alcorão, a Bíblia os Upanishads, o Tao Te Ching, o Talmude. Desde então, ele ficou lendo somente romances policiais. É assim que a mente funciona. Aquela proibição ainda é um remanescente.
 
Guenter, não é que eu não esteja ciente de que existem muitos poderes escondidos no homem, mas eu não quero que vocês fiquem interessados neles. Daí eu simplesmente dizer que eles são estúpidos. 
 
E existem muito mais coisas miraculosas acontecendo à sua volta. Interesse-se por elas, porque todo o meu esforço aqui é o de ajudar o crescimento espiritual de vocês não de atrapalhá-lo. 






28.10.04

O AMOR DE PAI
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
O carteiro estendeu o telegrama. 
 
Carlos Alberto não agradeceu e enquanto abria o envelope, uma  profunda ruga sulcou-lhe a testa. 
 
Uma expressão mais de surpresa do que de dor tomou-lhe conta do rosto. Palavras breves e incisas:
 
- Seu pai faleceu. Enterro 18 horas. Mamãe;
 
Carlos Alberto continuou  parado, olhando para o vazio.
 
Nenhuma lágrima lhe veio aos  olhos nenhum aperto no coração. 
 
Nada!
 
Era como se houvesse morrido um estranho. Por que nada sentia pela morte do velho?
 
Com um turbilhão de  pensamentos confundido-o, avisou a esposa, tomou o ônibus e se foi, vencendo os silenciosos quilômetros de estrada enquanto a cabeça girava a mil.
 
No íntimo, não queria ir ao funeral e, se estava indo era apenas para que a mãe não ficasse mais amargurada. Ela sabia que pai e filho não se davam bem.
 
A coisa havia chegado ao final no dia em que, depois de mais uma chuva de acusações, Carlos Alberto havia feito as malas e partido prometendo nunca mais botar os pés naquela casa.
 
Um emprego razoável, casamento, telefonemas à mãe pelo Natal, Ano Novo ou Páscoa... Ele havia se desligado da família não pensava no pai e a última coisa na vida que desejava na vida era ser parecido com ele.
 
O velório: poucas pessoas.
 
A mãe está lá, pálida, gelada, chorosa. 
 
Quando reviu o filho, as lágrimas correram silenciosas, foi um abraço de desesperado silêncio. Depois, ele viu o corpo sereno envolto por um  lençol de rosas vermelho - como as que o pai gostava de cultivar.
 
Carlos Alberto não verteu  uma única lágrima, o coração não pedia. 
 
Era como estar diante de um desconhecido um estranho, um...
 
O funeral: o sabiá cantando, o sol se pondo.
 
Ele ficou em casa com a mãe até a noite, beijou-a e prometeu que voltaria trazendo netos e esposa para conhecê-la. 
 
Agora, ele poderia voltar à casa, porque aquele que não o amava, não estava mais lá para dar-lhe conselhos ácidos nem para criticá-lo.
 
Na hora da despedida a mãe colocou-lhe algo pequeno e retangular na mão.
 
- Há mais tempo você poderia ter recebido isto - disse.
 
- Mas, infelizmente só depois que ele se foi eu encontrei entre os guardados mais importantes...
 
Foi um gesto mecânico que, minutos depois de começar a viagem, meteu a não no bolso e sentiu o presente. 
 
O foco mortiço da luz do bagageiro revelou uma pequena caderneta de capa vermelha. Abriu-a curioso.
 
Páginas amareladas. Na primeira, no alto, reconheceu a caligrafia firme do pai:
 
"Nasceu hoje o Carlos Alberto. Quase quatro quilos! O meu primeiro filho, um garotão!."Estou orgulhoso de ser o pai daquele que será a minha continuação na Terra!."
 
À medida que folheava, devorando cada anotação, sentia um aperto na boca do estomago, mistura de dor e perplexidade, pois as imagens do passado ressurgiram firmes e atrevidas como se acabassem de acontecer!
 
"Hoje, meu filho foi para escola. Está um homenzinho! Quando eu vi ele de uniforme, fiquei emocionado e desejei-lhe um futuro cheio de sabedoria. A vida dele será diferente da minha, que não pude estudar por ter sido obrigado a ajudar meu  pai.Mas para meu filho desejo o melhor. Não permitirei que a vida o castigue".
 
Outra página - "Carlos Alberto me pediu uma bicicleta, meu salário não dá, mas ele merece porque é estudioso e esforçado. Fiz um empréstimo que espero pagar com horas extras".
 
Carlos Alberto mordeu os lábios. Lembrava-se da sua intolerância, das brigas feitas para ganhar a sonhada bicicleta. 
 
Se todos os amigos ricos tinham uma, por que ele também não poderia ter a sua?
 
E quando, no dia do aniversário, a havia recebido, tinha corrido aos braços da mãe sem sequer olhar para o pai. 
 
Ora, o "velho" vivia mal-humorado, queixando-se do cansaço, tinha os olhos sempre vermelhos... e Carlos Alberto detestava aqueles olhos injetados sem jamais haver suspeitado que eram de trabalhar até a meia-noite para pagar a bicicleta... !
 
"Hoje fui obrigado a levantar a mão contra meu filho! Preferia que ela tivesse sido cortada, mas foi preciso tentar chamá-lo razão, Carlos Alberto anda em más companhias, tem vergonha da pobreza dos pais e, se não disciplinar amanhã será um marginal."
 
"É duro para um pai castigar um filho e bem sei que ele poderá me odiar por isso; entretanto, devo educá-lo para seu próprio bem."
 
"Foi assim que aprendi a ser um homem honrado e esse é o único modo que sei de ensiná-lo".
 
Carlos Alberto fechou os olhos e viu toda a cena quando por causa de uma bebedeira, tinha ido para a cadeia e naquela noite, se o pai não tivesse aparecido para impedi-lo de ir ao baile com os amigos...
 
Lembrava-se apenas do automóvel retorcido e manchado de sangue que tinha batido contra uma árvore... Parecia ouvir sinos, o choro da cidade inteira enquanto quatro caixões seguiam lugubremente para o cemitério.
 
As páginas se sucediam com ora curtas, ora longas anotações, cheias das respostas que revelam o quanto, em silêncio e amargura, o pai o havia amado. O "velho" escrevia de madrugada.
 
Momento da solidão, num  grito de silêncio, porque era desse jeito que ele era, ninguém o havia ensinado a chorar e a dividir suas dores, o mundo esperava que fosse durão para que não o julgassem nem fraco e nem covarde.
 
E, no entanto, agora Carlos Alberto estava tendo a prova que, debaixo daquela fachada de fortaleza havia um coração tão terno e cheio de amor.
 
A ultima pagina. Aquela do dia em que ele havia partido:
 
- "Deus, o que fiz de errado para meu filho me odiar tanto? Por que sou considerado culpado, se nada fiz, senão tentar transformá-lo em um homem de bem?"
 
"Meu Deus, não permita que esta injustiça me atormente para sempre. Que um dia ele possa me compreender e perdoar por eu não ter sabido ser o pai que ele merecia ter."
 
Depois não havia mais anotações e as folhas em branco davam a idéia de que o pai tinha morrido naquele momento, Carlos Alberto fechou depressa a caderneta, o peito doía. O coração parecia haver crescido tanto, que lutava para escapar pela boca. Nem viu o ônibus entrar na rodoviária, levantou aflito e saiu quase correndo porque precisava de ar puro para respirar, a aurora rompia no céu e mais um dia começava.
 
"Honre seu pai para que os dias de sua velhice sejam tranqüilos!" - certa vez ele tinha ouvido essa frase e jamais havia refletido na profundidade que ela continha.
 
Em sua egocêntrica cegueira de adolescente, jamais havia parado para pensar em verdades mais profundas.
 
Para ele, os pais eram descartáveis e sem valor como as embalagens que são atiradas ao lixo. Afinal, naqueles dias de pouca reflexão tudo era juventude, saúde, beleza, musica, cor, alegria, despreocupação e vaidade.
 
Não era ele um semideus? Agora, porém, o tempo o havia envelhecido, fatigado e também tornado pai aquele falso herói.
 
De repente. No jogo da vida, ele era o pai e seus atuais contestadores. Como não havia pensado nisso antes? Certamente por não ter tempo, pois andava muito ocupado com os negócios, a luta pela sobrevivência, a sede de passar fins de semana longe da cidade grande, a vontade de mergulhar no silêncio sem precisar dialogar com os filhos.
 
Ele jamais tivera a idéia de comprar uma cadernetinha de capa vermelha pala anotar uma à frase sobre seus  herdeiros, jamais lhe havia passado pela cabeça escrever que tinha orgulho daqueles que continuam o seu nome. Justamente ele, que se considerava o mais  completo pai da Terra?
 
Uma onda de vergonha quase o prostrou por terra numa derradeira lição de humildade. Quis gritar, erguer procurando agarrar o velho para sacudi-lo e abraçá-lo, encontrou apenas o vazio.
 
Havia uma raquítica rosa vermelha num galho no jardim de uma casa, o sol acabava de nascer. Então, Carlos Alberto acariciou as pétalas e lembrou-se da mãozona do pai podando, adubando e cuidando com amor. Por que nunca tinha percebido tudo aquilo antes?
 
Uma lágrima brotou como o orvalho, e erguendo os olhos para o céu dourado, de repente, sorriu e desabafou-se numa confissão aliviadora:
 
- "Se Deus me mandasse escolher, eu juro que não queria ter tido outro pai que não fosse você velho! Obrigado por tanto amor, e me perdoe por haver sido tão cego."






28.10.04

ANTIOPE
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOS DA GRECIA E ROMA
MITOLOIA E FOLCLORE
 
 
A filha do rei Nicteu de Beócia. Para esta ocasião Zeus fez-se passar por um modesto mas erótico sátiro e o encantamento fez o oportuno efeito. Não há que confundí-la com a sua homônima Antíope, rainha de amazonas e esposa do grande Teseu.






28.10.04

A CRIAÇÃO DO MUNDO
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOS DA AFRICA
MITOLOGIA E FOLCLORE
 
 
Olorun, Deus supremo, criou um ser, a partir do ar (que havia no início dos tempos) e das primeiras águas. Esse ser encantado, que era todo branco e muito poderoso, foi chamado Oxalá. Logo em seguida, criou um outro orixá que possuía o mesmo poder do primeiro, dando-lhe o nome de Nanan. Os dois nasceram da vontade de Olorun de criar o universo.
 
Oxalá passou a representar a essência masculina de todos os seres, tornando-se o lado direito de Olorun. Nanan, por sua vez, teria a essência feminina, e representaria o lado esquerdo. Outros orixás também foram criados, formando-se um verdadeiro exército a serviço de Olorun, cada um com uma função determinada para executar os planos divinos.
 
Exú foi o terceiro elemento criado, para ser o elo de ligação entre todos os orixás, e deles com Olorun. Tornou-se costume prestar-lhe homenagens antes de qualquer outro, pois é ele quem leva as mensagens e carrega os ebós.
 
Olorun confiou à Oxalá a missão de criar a Terra, investindo-o de toda a sabedoria e poderes necessários para o sucesso dessa importante tarefa. Deu a ele uma cabaça contendo todo axé que seria utilizado.
 
Oxalá, orgulhoso por ter recebido tamanha honraria, achou desnecessário fazer as oferendas a Exú.
 
Exú, vendo que Oxalá partira sem lhe fazer as oferendas, previu que a missão não seria cumprida, pois, mesmo com a cabaça e toda a força do mundo, sem a sua ajuda não conseguiria chegar ao local indicado por Olorun.
 
A caminhada era longa e difícil, e Oxalá começou a sentir sede, mas, devido à importância de sua missão, não podia se dar ao luxo de parar para beber água. Não aceitou nada do que lhe foi oferecido, nem mesmo quando passou perto de um rio interrompeu a sua jornada. Mais à frente, encontrou uma aldeia, onde lhe ofereceram leite de cabra para saciar sua sede, que também foi recusado.
 
Todos os caminhos pareciam iguais e, depois de andar por muito tempo, sentiu-se perdido. De repente, ele avistou uma palmeira muito frondosa, logo à sua frente, Oxalá, já delirando de tanta sede, atingiu o tronco da palmeira com seu cajado, sorvendo todo o líquido que saía de suas entranhas (era vinho de palma). Embriagado pela bebida, desmaiou ali mesmo, ficando desacordado por muito tempo.
 
Exú avisou Nanan que Oxalá não havia feito as oferendas propiciatórias, por isso não terminaria sua tarefa. Ela, agindo por contra própria, resolveu consultar um babalawô para realizar devidamente as oferendas. O sacerdote enumerou uma série de coisas que ela deveria oferecer, entre elas um camaleão, uma pomba, uma galinha com cinco dedos e uma corrente com nove elos. Exú aceitou tudo, mas só ficou com a corrente, devolvendo o restante à Nanan, pois ela iria precisar mais tarde. Outros sacrifícios foram realizados, até que Olorun a chamou para procurar Oxalá, que havia esquecido o saco da criação com o qual criaria a Terra. Nanan, após terminar suas oferendas, foi atrás de Oxalá, encontrando-o desacordado próximo ao local onde deveria chegar.
 
Ao saber que Oxalá havia falhado em sua missão, Olorun ordenou que a própria Nanan prosseguisse naquela tarefa com a ajuda de todos os orixás. E assim foi feito. Nanan pegou o saco da criação e o entregou à pomba, para que voasse em círculo. A galinha com cinco dedos foi solta, para espalhar aquela imensa quantidade de terra, e, finalmente, o camaleão arrastou-se vagarosamente, para compactá-la e torná-la firme.
 
Quando Oxalá acordou, viu que a Terra já havia sido criada, e não o fora por ele. Desesperado, correu até Olorun, que o advertiu duramente por não ter reverenciado Exú antes de partir, julgando-se superior a ele. Oxalá, arrependido, implorou perdão. Olorun, sempre magnânimo, deu-lhe uma nova e importantíssima tarefa, que seria a de criar todos os seres que habitariam a Terra. Desta vez ele não poderia falhar!
 
Usando a mesma lama que criou a Terra, Oxalá modelou todos os seres, e, insuflando-lhes seu hálito sagrado, deu-lhes a vida.
 
Desta forma, Nanan e Oxalá desempenharam tarefas igualmente importantes, juntamente com a valiosa ajuda de todos os orixás, que possibilitaram o surgimento deste novo e maravilhoso mundo em que vivemos.

 






28.10.04

PAPA-FIGO
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOS DO BRASIL
MITOLOGIA E FOLCLORE
 
 
Duende do ciclo dos monstros assustadores de crianças.
 
Seria o "lobisomem" das cidades. "...havia ainda o papa-figo, homem que comia o fígado de menino.
 
Ainda hoje se afirma... que certo ricaço de Recife, não podendo se alimentar senão de fígados de crianças, tinha seus negros por toda parte, pegando menino em saco de estopa". É um velho sujo, horrível, esmolambado. Entrega doces, brinquedos e a narração de histórias para atrair crianças à saída das escolas ou aqueles cujas babás são distraídas ou namoradeiras.
 
Alguns comiam, mas outros vendiam a potentados doentes o fígado de seus pequenos prisioneiros.

 






27.10.04

A FLOR DA HONESTIDADE
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Conta-se que por volta do ano 250 a.c, na China antiga, um príncipe da regiao norte do país, estava as vésperas de ser coroado imperador, mas, de acordo com a lei, ele deveria se casar.
 
Sabendo disso, ele resolveu fazer uma "disputa" entre as moças da corte ou quem quer que se achasse digna de sua proposta. No dia seguinte, o príncipe anunciou que receberia, numa celebraçao especial, todas as pretendentes e lançaria um desafio.
 
Uma velha senhora, serva do palácio ha muitos anos,ouvindo os comentários sobre os preparativos, sentiu uma leve tristeza, pois sabia que sua jovem filha nutria um sentimento de profundo amor pelo príncipe.
 
Ao chegar em casa e relatar o fato a jovem, espantou- se ao saber que ela pretendia ir a celebraçao, e indagou incrédula:
 
- Minha filha, o que você fará lá? Estarao presentes todas as mais belas e ricas moças da corte. Tire esta idéia insensata da cabeça, eu sei que você deve estar sofrendo, mas nao torne o sofrimento uma loucura.
 
E a filha respondeu:
 
- Nao, querida mae, nao estou sofrendo e muito menos louca, eu sei que jamais poderei ser a escolhida, mas é minha oportunidade de ficar pelo menos alguns momentos perto do príncipe, isto já me torna feliz.
 
A noite, a jovem chegou ao palácio. La estavam, de fato, todas as mais belas mocas, com as mais belas roupas, com as mais belas jóias e com as mais determinadas intençoes. Entao, finalmente, o príncipe anunciou o desafio:
 
- Darei a cada uma de vocês, uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a mais bela flor, será escolhida minha esposa e futura imperatriz da China.
 
A proposta do príncipe nao fugiu as profundas tradiçoes daquele povo, que valorizava muito a especialidade de "cultivar" algo, sejam costumes, amizades, relacionamentos etc...
 
O tempo passou e a doce jovem, como nao tinha muita habilidade nas artes da jardinagem, cuidava com muita paciência e ternura a sua semente, pois sabia que se a beleza da flor surgisse na mesma extensao de seu amor, ela não precisava se preocupar com o resultado. Passaram-se três meses e nada surgiu. A jovem tudo tentara, usara de todos os métodos que conhecia, mas nada havia nascido. Dia após dia ela percebia cada vez mais longe o seu sonho, mas cada vez mais profundo o seu amor.
 
Por fim, os seis meses haviam passado e nada havia brotado. Consciente do seu esforço e dedicaçao a moça comunicou a sua mae que, independente das circunstâncias retornaria ao palácio, na data e hora combinadas, pois não pretendia nada alem de mais alguns momentos na companhia do príncipe.
 
Na hora marcada estava lá, com seu vaso vazio, bem como todas as outras pretendentes, cada uma com uma flor mais bela do que a outra, das mais variadas formas e cores. Ela estava admirada, nunca havia presenciado tao bela cena.
 
Finalmente chega o momento esperado o príncipe observa cada uma das pretendentes com muito cuidado e atençao.
 
Após passar por todas, uma a uma, ele anuncia o resultado e indica a bela jovem como sua futura esposa.
 
As pessoas presentes tiveram as mais inesperadas reaçoes. Ninguém compreendeu porque ele havia escolhido justamente aquela que nada havia cultivado.
 
Entao, calmamente o príncipe esclareceu:
 
- Esta foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de se tornar uma imperatriz. A flor da honestidade, pois todas as sementes que entreguei eram estéreis.
 
A honestidade é como uma flor tecida em fios de luz, que ilumina quem a cultiva e espalha claridade ao redor.
 
Se para vencer, estiver em jogo a sua honestidade, perca. Você será sempre um vencedor.






27.10.04

ALCMENA
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOS DA GRECIA E ROMA
MITOLOGIA E FOLCLORE
 
 
Zeus converteu-se no vivo retrato de Anfitrião, esposo de Alcmena e rei de Tebas, para poder usurpar como marido a companhia da gentil rainha Alcmena.
 
A cilada funcionou perfeitamente e de tal amor surgiu nada menos que Héracles, o Hércules dos romanos, o mais poderoso herói da antiguidade, o herói que foi capaz de realizar os mais prodigiosos trabalhos que lhe impuseram como provas sucessivas.






27.10.04

DIONE
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOS DA GRECIA E ROMA
MITOLOGIA E FOLCLORE
 
 
De acordo com a Ilíada de Homero, Dione seria a mãe de Afrodite. Entretanto, há uma outra lenda para o nascimento da deusa do amor.
 
Uma ninfa filha de Urano ou Oceano e Terra ou Tétis, por quem Júpiter se apaixonou ardentemente um dia e deu lugar a outra grandiosa divindade, Vênus, nascida do seu seio conforme algumas das versões latinas, que preferiam a deusa da beleza e o amor tida num romance, antes que vê-la como surgida por acidente duma castração do pai pelo filho.






27.10.04

ANANKE E OS DAIMONES
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOS DA GRECIA E ROMA
MITOLOGIA E FOLCLORE
 
 
Ananke é a deusa da Necessidade, no sentido de se precisar de alguma coisa.
 
Representa as necessidades externas e internas, as de relacionamento ou de afinidade, da criatividade e da cura. Pode ser percebida nos vícios, nos transtornos obsessivo-compulsivos (TOC).
 
Daimones são espíritos puros que habitam a terra; benévolos e "guardiões dos mortais".
 
Do grego, deimon; genius para os romanos.






27.10.04

CEMUNNOS
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOS CELTA
MITOLOGIA E FOLCLORE
 
 
Conhecido em todas as regiões Celtas, Deus da Natureza e todas coisas selvagens. Deus da virilidade, fertilidade, animais, amor físico, natureza, reencarnação, encruzilhadas, riqueza, comércio, guerreiros. 






26.10.04

O GUARDIÃO DO CASTELO
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Certo dia num mosteiro zen-budista, com a morte do guardião foi preciso encontrar um substituto. O grande Mestre convocou, então, todos os discípulos para determinar quem seria o novo sentinela. O Mestre, com muita tranqüilidade, falou:
 
_"Assumirá o posto o primeiro monge que resolver o problema que vou apresentar."
 
Então, ele colocou uma mesinha magnífica no centro da enorme sala em que estavam reunidos e, em cima dela, pôs um vaso de porcelana muito raro, com uma rosa amarela de extraordinária beleza a enfeitá-lo e disse apenas :
 
_"Aqui está o problema !"
 
Todos ficaram olhando a cena : o vaso belíssimo, de valor inestimável, com a maravilhosa flor ao centro.
 
O que representaria ?! O que fazer ?! Qual o enigma ?!
 
Nesse instante, um dos discípulos sacou a espada, olhou o Mestre, os companheiros, dirigiu-se ao centro da sala e ... ZAPT ... destruiu tudo, com um só golpe. Tão logo o discípulo retornou a seu lugar, o Mestre disse :
 
_"Você será o novo Guardião do Castelo."






26.10.04

A ROUPA DE GANDHI
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Mahatma Gandhi provou que a "roupa não faz o homem".
 
Ele só usava uma tanga a fim de se identificar com as massas simples da Índia.
 
Certa vez ele chegou assim vestido numa festa dada pelo governador inglês.
 
Os criados não o deixaram entrar.
 
Ele voltou para casa e enviou um pacote ao governador, por um mensageiro.
 
Dentro continha um terno.
 
O governador ligou para a casa dele e perguntou-lhe o significado do embrulho.
 
O grande homem respondeu:
 
- Fui convidado para a sua festa, mas não me permitiram entrar por causa da minha roupa.  Se é a roupa que vale, eu lhe enviei o meu terno.






26.10.04

A CACHORRA DA PALMEIRA
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOS DO NORDESTE DO BRASIL
MITOLOGIA E FOLCLORE
 
 
É conhecido em Alagoas. Conta-se que uma moça que não acreditava em Padre Cícero e foi transformada em cachorra que passou a correr... até hoje






26.10.04

YEMANJÁ - IEMANJÁ - YEMONJÁ
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOS DA AFRICA
MITOLOGIA E FOLCLORE
 
 
A Senhora dos Oceanos.
 
Trabalha em favor do amor, da família e a educação das crianças, além da maternidade.
 
Conta o mito da criação, que dos seios fartos de Iemanjá, brotaram os oceanos e com ele os orixás seus filhos: Exú, Ogum, Oxossi, Xangô e Oxum.
 
Yemonjá, grande orixá das águas, era filha de Olokun, o senhor dos oceanos.
 
Era possuidora de um grande instinto maternal, que fez dela mãe de dez filhos.
 
Embora casada, não tinha grande apego por seu marido. Às vezes, pensava em deixá-lo, mas ele era um homem muito importante e poderoso, e não permitiria tal desonra. Yemonjá também pensava no bem-estar de seus filhos, não podendo deixá-los desamparados.
 
Seu marido usava o poder com tirania, inclusive com sua família, tornando a vida dela insuportável. Ela não agüentava mais se submeter aos caprichos de um homem que ela desprezava.
 
Ela procurou seu pai para aconselhar-se sobre a atitude que deveria tomar. No fundo, ela já estava decidida a fugir, mas precisava de seu apoio. Olokun não a recriminou, pois ela era uma soberana e, como tal, não poderia aceitar o jugo de ninguém. Ele, então, deu à sua filha uma cabaça com encantamentos, para que ela usasse quando estivesse em perigo.
 
Yemonjá colocou seu plano em prática, fugindo com todos os seus filhos.
 
Quando ela já estava bem longe de sua aldeia, viu que estava sendo perseguida pelo exército de seu marido. Pensou em enfrentá-los, mas eles eram muitos e seria uma luta desleal. Yemonjá odeia os confrontos, pela destruição que causam, já que é um orixá propagador de vida.
 
Quando se sentiu acuada, resolveu abrir a cabaça e pedir socorro ao seu pai. Do seu interior escoou um líquido escuro, que, ao tocar o chão, imediatamente formou um rio, que corria em direção ao oceano.
 
Foi nessas águas que Yemonjá e seu povo encontraram um caminho para a liberdade.






26.10.04

BEL - BELENUS
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOLOGIA CELTA
MITOS E FOLCLORE
 
 
Deus, estreitamente ligado aos Druídas.
 
Deus da ciência, restabelecimento, primaveras quentes, fogo, sucesso, prosperidade, purificação, colheitas, vegetação, fertilidade.






25.10.04

GWYDION
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOLOGIA CELTA
MITOS E FOLCLORE
 
 
Deus, o maior, guerreiro-mágico, mudanças, magia, o céu.






25.10.04

DEZ MANDAMENTOS
OSHO
CONTOS E LENDAS
 
 
1. Não obedeça nenhuma regra, exceto aquela que vem de dentro.
 
2. O único Deus é a própria vida.
 
3. A verdade está dentro de si mesmo, não busque por ela em nenhum outro lugar
 
4. Amor é prece.
 
5. Vazio é a porta para a verdade, é o meio, o fim e o resultado.
 
6. A vida é aqui e agora.
 
7. Viva totalmente acordado.
 
8. Não nade, flutue.
 
9. Morra a cada momento para que você possa se renovar a cada momento.
 
10. Pare de buscar. Aquilo que é, é. Pare e veja.






25.10.04

MUNDO NOVO
WALDEMAR DE ANDRADE E SILVA
MITOLOGIA BRASILEIRA
MITOS E FOLCLORE
 
 
A nação indígena dos Kaiapós habitava uma região onde não havia o Sol nem  a Lua., tampouco rios ou florestas, ou mesmo o azul do céu.  Alimentavam-se apenas de alguns animais e mandioca, pois não conheciam peixes, pássaros ou frutas. 
 
Certo dia, estando um índio a perseguir um tatu-canastra, acabou por distanciar-se da sua  aldeia.  Inacreditavelmente, à medida que o índio se afastava, sua caça crescia cada vez mais.
 
Já próximo de alcançá-la, o tatu rapidamente cavou a terra, desaparecendo dentro dela.  Sendo uma cova imensa, o indígena decidiu  seguir o animal, ficando surpreso  ao perceber que, ao final da escuridão, brilhava uma faixa de luz.  Chegando até ela, maravilhado, viu que lá existia um outro mundo, com um céu muito azul e o sol a iluminar e a aquecer as criaturas;  na água, muitos peixes coloridos e tartarugas.  Nos lindos campos floridos, destacavam-se as frágeis borboletas;  florestas exuberantes abrigavam belíssimos animais e insetos exóticos, contendo ainda diversas árvores, carregadas de frutos.  Os pássaros embelezavam o espaço com suas lindas plumagens.
 
Deslumbrado, o índio ficou a admirar aquele paraíso, até o cair da noite.   
 
Entristecido ao acompanhar o pôr-do-sol,  pensou em retornar, mas já estava escuro...  Novamente surge à sua frente outro cenário maravilhoso:  uma enorme Lua nasce detrás das montanhas, clareando com sua luz de prata toda a natureza.  Acima dela, multidões de estrelas faziam o céu brilhar.  Quanta beleza!  E assim permaneceu, até que a lua se foi, surgindo novamente o Sol.
 
Muito emocionado, o índio voltou à tribo e relatou as maravilhas que viera a conhecer.  O grande pajé Kaiapó, diante do entusiasmo de seu povo, consentiu que todos seguissem um outro tatu, descendo um a um pela sua cova através de uma imensa corda, até o paraíso terrestre.  Lá seria o magnífico Mundo Novo, onde todos viveriam felizes. 






25.10.04

PAULO COELHO
CONTOS E LENDAS
 
 
Uma mãe levou seu filho ao Mahatma Gandhi e implorou: "por favor, Mahatma, peça ao meu filho para não comer açúcar".
 
Gandhi, depois de uma pausa, pediu: "me traga seu filho daqui a duas semanas".
 
Duas semanas depois, ela voltou com o filho. Gandhi olhou bem fundo nos olhos do garoto e disse: "não coma açúcar".
 
Agradecida - mas perplexa - a mulher perguntou: "por que me pediu duas semanas? Podia ter dito a mesma coisa antes!"
 
E Gandhi respondeu: "há duas semanas atrás, eu estava comendo açúcar".

 






25.10.04

NUADA OU NUDD
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOLOGIA CELTA
MITOS E FOLCLORE
 
 
Deus parecido com Netuno, Deus das águas, oceanos, pesca e sol.

 
 






22.10.04

A BOMBA DE AGUA
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Contam que um certo homem estava perdido no deserto, prestes a morrer de sede. Foi quando ele chegou a uma casinha velha - uma cabana desmoronando - sem janelas, sem teto, batida pelo tempo. O homem perambulou por ali e encontrou uma pequena sombra onde se acomodou, fugindo do calor do sol desértico.
 
Olhando ao redor, viu uma bomba a alguns metros de distância, bem velha e enferrujada. Ele se arrastou até ali, agarrou a manivela, e começou a bombear sem parar. Nada aconteceu. Desapontado, caiu frustrado para trás e notou que ao lado da bomba havia uma garrafa.
 
Olhou-a, limpou-a, removendo a sujeira e o pó, e leu o seguinte recado: "Você precisa primeiro preparar a bomba com toda a água desta garrafa, meu amigo.
 
P S.: Faça o favor de encher a garrafa outra vez antes de partir."
 
O homem arrancou a rolha da garrafa e, de fato, lá estava a água. A garrafa estava quase cheia de água! De repente, ele se viu em um dilema: Se bebesse aquela água poderia sobreviver, mas se despejasse toda a água na velha bomba enferrujada, talvez obtivesse água fresca, bem fria, lá no fundo do poço, toda a água que quisesse e poderia deixar a garrafa cheia para a próxima pessoa... mas talvez isso não desse certo.
 
Que deveria fazer? Despejar a água na velha bomba e esperar a água fresca e fria ou beber a água velha e salvar sua vida? Deveria perder toda a água que tinha na esperança daquelas instruções pouco confiáveis, escritas não se sabia quando?
 
Com relutância, o homem despejou toda a água na bomba. Em seguida, agarrou a manivela e começou a bombear... e a bomba começou a chiar. E nada aconteceu!
 
E a bomba foi rangendo e chiando. Então surgiu um fiozinho de água; depois um pequeno fluxo, e finalmente a água jorrou com abundância! A bomba velha e enferrujada fez jorrar muita, mas muita água fresca e cristalina. Ele encheu a garrafa e bebeu dela até se fartar. Encheu-a outra vez para o próximo que por ali poderia passar, arrolhou-a e acrescentou uma pequena nota ao bilhete preso nela: "Creia-me, funciona! Você precisa dar toda a água antes de poder obtê-la de volta!"

 






22.10.04

ZIG ZIGLAIR
CONTOS E LENDAS
 
 
Em seu lindo livro Rising Above the Crowd [Elevando-se Acima da Multidão], Brian Harbour conta a história de Ben Hooper.
 
Quando Ben Hooper nasceu muitos anos atrás nas encostas das montanhas do leste do Tennessee, os meninos e as meninas como ele, filhos de mães solteiras, eram condenados ao ostracismo e tratados com hostilidade. Quando Ben Hooper tinha três anos, as outras crianças evitavam brincar com ele. Os pais diziam coisas grosseiras como: “Por que um menino como esse brinca com nossos filhos?”, como se a criança tivesse alguma coisa a ver com sua origem.
 
Sábado era o pior dia da semana. A mãe de Ben o levava a um pequeno armazém para comprar mantimentos para a semana. Invariavelmente, os outros pais que estavam no armazém faziam comentários mordazes em voz alta para que a mãe e o filho ouvissem, comentários do tipo: “Você sabe quem é o pai dele?” Que infância terrível!
 
Naquela época não havia pré-escola. Portanto, aos seis anos de idade, o pequeno Ben ingressou no primeiro ano. Deram-lhe uma carteira para ele se sentar, igual à das outras crianças. No recreio, continuava sentado em sua carteira estudando, porque as outras crianças não brincavam com ele. Ao meio-dia, o pequeno Ben comia seu lanche sozinho. A algazarra da criançada que o evitava mal podia ser ouvida do lugar em que ele se encontrava.
 
Quando alguém se mudava para a encosta das montanhas do leste de Tennessee, havia um grande alvoroço na cidade. Na época em que Ben tinha 12 anos, chegou um novo pastor para tomar conta da pequenina igreja da cidade onde Ben morava.
 
Logo em seguida, o pequeno Ben começou a ouvir comentários positivos a respeito do pastor que ele era amoroso e imparcial, que ele aceitava as pessoas como elas eram, e, quando estava entre elas, fazia com que se sentissem importantes. Diziam que o pastor tinha carisma. Quando ele conversava com um grupo de qualquer tamanho, de qualquer lugar, o modo de ser daquele grupo mudava. Os sorrisos alargavam-se, as gargalhadas aumentavam e o ânimo intensificava-se.
 
Certo domingo, apesar de nunca ter entrado na igreja antes, o pequeno Ben Hooper decidiu ir até lá para ouvir o pastor falar. Chegou atrasado e saiu mais cedo, porque não queria chamar a atenção de ninguém, mas gostou do que ouviu. Pela primeira vez na vida, aquele garoto vislumbrou um brilho de esperança.
 
Ben voltou à igreja no domingo seguinte, no outro e no outro. Sempre chegava atrasado e saía mais cedo, mas sua esperança aumentava a cada domingo.
 
No sexto ou sétimo domingo, a mensagem foi tão comovente e empolgante que Ben ficou completamente cativado por ela. Parecia haver uma tabuleta atrás da cabeça do pastor com os seguintes dizeres: “Pequeno Ben Hooper, filho de pai desconhecido, há esperança para você!” Ben ficou tão absorto ao ouvir a mensagem que se esqueceu do tempo e não notou que um grande número de pessoas entrou depois que ele se sentou.
 
De repente, o culto terminou. Ben levantou-se rapidamente para sair como fazia todos os domingos, mas os corredores estavam apinhados, e ele não podia fugir dali. Enquanto tentava abrir caminho no meio do povo, ele sentiu que alguém pousou a mão em seu ombro. Virou-se e deu de frente com os olhos do jovem pastor, que lhe fez uma pergunta que estava na mente de todas as pessoas da cidade nos últimos 12 anos:
 
—      Quem é você, garoto?
 
Houve um silêncio mortal na igreja. Lentamente, um leve sorriso começou a surgir no rosto do jovem pastor até transformar-se em um largo sorriso, e ele exclamou:
 
—      Oh! Eu sei quem você é! Seu rosto me é muito familiar! Você é filho de Deus!
 
O jovem pastor o conduziu até o fundo da igreja e disse:
 
—      Você recebeu uma bela herança, garoto! Agora vá e tente viver de acordo com ela.






22.10.04

QUEM É VOCÊ?

 
DESCONHEÇO O AUTOR
 
CONTOS E LENDAS
 
 
O Mestre Ma-ku certa vez chamou seu discípulo:
 
"Liang-sui!"
 
O outro monge respondeu:
 
"Sim?"
 
Ao ouvir essa resposta, o mestre novamente chamou:
 
"Liang-sui!"
 
O monge disse:
 
"Pronto!"
 
Pela terceira vez o mestre falou:
 
"Liang-sui!"
 
O discípulo, intrigado, replicou:
 
"Estou aqui, mestre."
 
Após uma pausa sem nada dizer, o sábio exclamou para seu aluno:
 
"Quão tolo tu és!"
 
Ao ouvir isso Liang-sui teve o Satori, e afirmou:
 
"Mestre, já não mais me engano. Se não tivesse buscado a vós como mestre, eu teria sido levado miseravelmente, durante toda minha vida, a permanecer preso aos sutras e aos sastras!"
 
Mais tarde, alguns companheiros de Liang-sui perguntaram-lhe:
 
"O que sabes sobre a filosofia de Buddha?"
 
Liang-sui respondeu:
 
"Tudo o que sabeis eu também sei. Mas o que sei nenhum de vós sabeis."






22.10.04

O BOBO
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Conta-se que numa pequena aldeia um grupo de pessoas se divertia com um idiota, um pobre coitado de pouca inteligência, que vivia de pequenos biscates e esmolas.
 
Diariamente eles chamavam o bobo ao bar onde se reuniam e ofereciam a ele a escolha entre duas moedas - uma grande de 400 réis e outra menor, de dois mil réis.
 
Ele sempre escolhia a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos.
 
Certo dia, um dos membros do grupo chamou-o e lhe perguntou se ainda não havia percebido que a moeda maior valia menos. "Eu sei" - respondeu o não tão tolo assim - " ela vale cinco vezes menos, mas no dia que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou mais ganhar minhas moedas."
 
PODE-SE TIRAR VÁRIAS CONCLUSÕES DESTA NARRATIVA:
 
A primeira: quem parece idiota, nem sempre é.
 
A segunda (dita em forma de pergunta): quais eram os verdadeiros tolos da história?
 
A terceira: se você for ganancioso, acaba estragando sua fonte de renda.
 
Mas a conclusão mais interessante, a meu ver, é a percepção de que podemos estar bem, mesmo quando os outros não têm uma boa opinião a nosso respeito.
 
Portanto, o que importa não é o que pensam de nós, mas o que realmente somos...






22.10.04

CARGA INÚTIL
DESCONHEÇO O AUTOR
CONTOS E LENDAS
 
 
Certo dia, um professor atento ao comportamento dos seus alunos observou que poderia ajudá-los a resolver alguns problemas de cunho íntimo, e propôs uma atividade.
 
Pediu a todos que levassem uma sacola e algumas pedras, de vários tamanhos e formas para a próxima aula.
 
No dia seguinte, orientou que cada um escolhesse uma pedra e escrevesse nela o nome de cada pessoa de quem sentiam mágoa, inveja, rancor, ou ciúme. A pedra deveria ser escolhida conforme o tamanho do sentimento.
 
Depois que todos haviam terminado a tarefa, o professor pediu que colocassem as pedras na sacola e a carregassem junto ao corpo para todos os lugares onde fossem, dia e noite.
 
Se alguma pessoa viesse a lhes causar sofrimento ainda intenso, eles poderiam substituir a pedra por uma maior. E se uma nova pessoa os magoasse, deveriam escolher uma nova pedra, escrever o nome dela e colocar na sacola.
 
E quem resolvesse o problema com algumas das pessoas cujos nomes haviam escrito nas pedras, poderiam retirar a pedra e lançá-la fora.
 
Assim foi feito. Algumas sacolas ficaram cheias e pesadas, mas ninguém reclamou.
 
Naturalmente, com o passar dos dias, o conteúdo das sacolas aumentou em vez de diminuir.
 
O incômodo de carregar aquele peso se tornava cada vez mais evidente.
 
Com o passar dos dias os alunos começaram a mostrar descontentamento. Afinal de contas, estavam sendo privados de muitos movimentos, pois as pedras pesavam, e alguns ferimentos surgiram, provocados pelas saliências de algumas pedras.
 
Para não esquecer a sacola em nenhum lugar, os alunos deixavam de prestar atenção em outras coisas que eram importantes para eles.
 
Passado algum tempo, os alunos pediram uma reunião com o professor e falaram que não dava mais para continuar a experiência, pois estavam cansados de carregar aquele peso morto, e alguns ferimentos incomodavam.
 
O professor, que já aguardava pelo momento, falou-lhes com sabedoria: essa experiência foi criada para lhes mostrar o tamanho do peso espiritual que a mágoa, a inveja, o rancor ou o ciúme, ocasionam.
 
Quem mantém esses sentimentos no coração, perde precioso tempo na vida, deixa de prestar atenção em fatos importantes, além de provocar enfermidades como conseqüência.
 
Esse é o preço que se paga todos os dias para manter a dor e os sentimentos negativos que desejamos guardar conosco.
 
Agora a escolha é sua. Vocês têm duas opções: jogam fora as pedras ou continuam a mantê-las diariamente, desperdiçando forças para carregá-las.
 
Se vocês optarem pela paz íntima terão que se livrar desses sentimentos negativos.
 
Um a um, os alunos foram se desfazendo das pesadas sacolas, e todos foram unânimes em admitir que estavam se sentindo mais leves, em todos os sentidos.
 
A proposta era de deixar com as pedras os ressentimentos que cada uma delas representava. E isso dava a cada um a sensação de alívio. Por fim todos se abraçaram e confessaram que naquele gesto simples descobriram que não vale a pena perder tempo e saúde carregando um fardo inútil e prejudicial.