Contos e Lendas: VIA LÁCTEA

10.1.05

VIA LÁCTEA
DESCONHEÇO O AUTOR
MITOS DA ESTÔNIA
MITOLOGIA E FOLCLORE
 
 
Depois da criação do mundo, Deus pôs na Terra uma bela jovem e confiou a seus cuidados todos os pássaros que voam sob o céu. Era Lindu, a doce filha de Ukko, que conhecia as rotas de todas as aves migradoras: de onde vêm na primavera, e para onde se dirigem no outono, e designava a cada qual o lugar onde devia habitar. Ocupava-se dos pássaros com terna solicitude, como uma mãe com seus filhinhos, e dava-lhes tudo quanto podia e eles necessitavam. Como uma flor sob as gotas do orvalho brilha à luz da alvorada, assim aparecia Lindu no meio de seus passarinhos.
 
Não é para estranhar que atraísse todos os jovens e que muitos se enamorassem dela. Todos desejavam tê-la como esposa e os pretendentes acudiam um atrás do outro. Um dia chegou a Estrela do Norte, num grande carro puxado por seis cavalos escuros, e trouxe-lhe dez presentes. Lindu, porém, deu-lhe uma resposta amarga:
 
- Deves estar sempre no mesmo lugar e jamais podes mover-te dele. E a Estrela Polar teve que voltar em seu formoso e poderoso carro.
 
Então, chegou a Lua, num carro de prata, puxado por dez cavalos morenos, e trouxe vinte presentes. Mas Lindu recusou o presente da Lua, dizendo-lhe:
 
- Mudas demais e deves seguir sempre teu velho caminho: não me podes convir.
 
E a Lua teve que voltar em seu formoso carro de prata, arrastado por dez fortes cavalos morenos. Mal a Lua se despedira, tão triste, chegou o Sol. Adiantava-se num carro de ouro puxado por vinte áureos cavalos vermelhos e trazia trinta presentes. Mas todo aquele esplendor, toda aquela magnificência e seus ricos presentes, não comoveram o coração de Lindu, que respondeu à pretensão do Sol:
 
- Não te posso amar. Segues sempre teu velho caminho, assim como a Lua.
 
E o Sol recolheu seus trinta presentes e voltou em seu carro puxado por vinte cavalos de ouro vermelho.
 
Por fim, à meia-noite, apresentou-se a Aurora Boreal. Vinha num carro de brilhantes, arrastado por mil corcéis brancos. Sua chegada foi tão esplendorosa, que Lindu correu para vê-la. Os servidores da Aurora Boreal transportaram uma carreta de ouro, de prata, de pérolas e jóias para a mansão de Lindu. E tudo aquilo agradou tanto Lindu e seus pais, que ela aceitou a Aurora Boreal como esposo, dizendo-lhe:
 
- Tu não estás fixo sempre, nem segues sempre o mesmo caminho. Partes quando queres e ficas quanto te parece bem. Cada vez surges com um novo esplendor e uma nova magnificência. Cada vez te apresentas com um trajo diferente, e de cada vez vens montado num carro novo, com novos cavalos. Tu me convéns e sou tua.
 
Então, festejaram seu compromisso com grande júbilo. Mas o Sol, a Lua e a Estrela Polar contemplavam aquelas festas com grande tristeza e invejavam a felicidade da Aurora Boreal. Esta não pôde demorar muito sua partida e teve que abandonar a casa da noiva, pois era obrigada a voltar ao Norte à meia-noite. Antes de ir embora, entretanto, prometeu voltar para o casamento e para levar sua noiva a residir em sua casa do Norte. Durante o intervalo, ela devia preparar seu vestido e arranjar tudo quanto fosse necessário para o casamento.
 
Então Lindu começou os preparativos. Uni dia seguia-se a outro, mas o noivo não chegava. O inverno passou, e depois a primavera ornou o mundo com beleza nova. Chegaram os calores e o estio fez granar o trigo. Lindu, contudo, esperava em vão pelo noivo. Ele não chegava.
 
A jovem começou, então, a sentir-se angustiada, a chorar e a lamentar-se. Sentava-se no prado, junto do arroio, com seu vestido de noiva, de longo véu branco e uma formosa coroa de flores.
 
Em torno dela voavam os passarinhos, acariciando-a com suas asas, querendo consolá-la. Ela, porém, em sua imensa infelicidade, não pensava nem via nada: só esperava e esperava. E a Aurora Boreal não chegava em seu carro de brilhantes, puxado por mil corcéis brancos. O véu branco de Lindu flutuava no ar. Voavam os pássaros e ela não os via, nem cuidava de dirigir-lhes o vôo. Já era outono, e as aves migradoras, sem o cuidado de Lindu, não sabiam o que fazer, nem para onde se dirigir.
 
Por fim chegou aos ouvidos de Ukko a notícia da desesperação da moça, e das dores que ela estava sofrendo. Soube ele, também, como os pássaros estavam desorientados, sem saber para onde voar nem onde encontrar alimento. E Ukko ordenou aos ventos que tomassem docemente, suavemente, a jovem Lindu em seus braços e livrassem-na das misérias deste mundo.
 
E uma tarde, quando o Sol tingia de vermelho as folhas já caducas das árvores, quando o outono envolvia em serenidade o mundo, os ventos tomaram Lindu docemente, e, sem que ela o percebesse, levaram-na e depositaram-na no firmamento, no céu azul.
 
Ali morou ela, desde então, num maravilhoso palácio celestial. Seu branco véu de noiva se estende de uma extremidade a outra do céu, e assim é visto nas noites profundas. Dali dirige as aves migradoras, em suas longas viagens, e à meia-noite ergue os braços e saúda a Aurora Boreal. Quando chegou o inverno, a Aurora Boreal veio visitá-la e recordar-lhe sua promessa. Mas ela já não podia mover-se dali, daquele lugar onde a vemos com seu grande véu branco. E a ela os homens chamam Via-Láctea.